Bienal de Veneza discute crise ambiental

O tema é "Cidade: Menos Estética, Mais Ética". Não é necessariamente uma surpresa, já que os temas das bienais de arquitetura de Veneza sempre são considerados um tanto "nebulosos", abstratos. Na bienal passada, por exemplo, o tema era "O Arquiteto Como Sismógrafo". Será que falavam de alguma espécie de ciborgue da prancheta?À parte a abstração do tema, a 7.ª Mostra Internacional de Arquitetura da Bienal de Veneza será aberta ao público domingo - e vai até 29 de outubro - com alertas importantes. Segundo o arquiteto britânico Richard Rogers, um dos convidados da mostra, o problema é mais concreto que conceitos de ética ou estética. "As cidades estão se dirigindo para uma crise de ambientalismo global", advertiu Rogers. Ele cita estatísticas: as cidades consomem mais de 75% da energia do mundo, causam a maior parte de sua poluição e concentram 50% da população do planeta. E há, hoje, 55 cidades cuja população está acima de 5 milhões de pessoas - em 1990 havia apenas 35 cidades com esse perfil. "Arquitetos, engenheiros e designers urbanos têm responsabilidade social e ambiental", disse Rogers. Segundo ele, o design, por exemplo, pode reduzir consumos de energia em cerca de 40%. Novos planejamentos para edifícios, bairros e cidades podem levar à redução de gastos com luz e água, diz. Certamente, esses serão os temas dominantes na Bienal de Arquitetura, que terá convidados célebres como Norman Foster, Isozaki, Renzo Piano, Jean Nouvel e Peter Cook. "Em italiano, ´Menos Estética, Mais Ética´ é algo mais retórico", disse o curador da mostra, o italiano Massimiliano Fuksas. "É por isso que usamos a expressão em inglês, ´Less Aesthetics, More Ethics´, que remete à difícil situação na qual se encontra o arquiteto neste fim de século, atravessada por uma dupla crise: aquela do autor e aquela da committenza", afirmou.A presumível responsabilidade do arquiteto ante o novo mundo não é uma unanimidade. Para o arquiteto suíço Mario Botta, a questão é mais acima: é necessária uma série de soluções políticas e econômicas. "O homem precisa das cidades e o arquiteto tem um poder limitado em relação a isso, só pode contribuir com sua reflexão", apontou Botta, em entrevista à reportagem, na semana passada. "A resposta técnica da arquitetura a esses problemas é uma resposta metafórica, construída a partir dos valores da memória e do espírito".A posição de Botta é severamente criticada por um dos representantes brasileiros na Bienal, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha. "Achei lastimável ele dizer isso, só mostra como é degenerescente o pensamento de Botta, que é portador de uma estética que mascara a rota do desastre na cidade", afirmou Rocha. "É uma arquitetura de monumentalidades, que não enfrenta os problemas de caráter técnico das cidades", disse.Segundo Mendes da Rocha, a discussão proposta pela Bienal de Arquitetura de Veneza é essencial. "A questão sobre o que fazer num mundo onde se pode fazer tudo é fundamental". Ele e João Filgueiras Lima, o Lelé (o outro representante do Brasil), são arquitetos que, mesmo tendo profunda atenção para o urbano, a urbanidade e o contexto em que projetam, estão fundamentalmente atentos para a obra arquitetônica enquanto manifestação artística e tecnológica de autor."A escolha brasileira por João Filgueiras Lima e Paulo Mendes da Rocha adapta-se bem ao tema escolhido, já que os dois trabalham por uma arquitetura mais humanizada", disse o arquiteto Carlos Bratke, presidente da Fundação Bienal de São Paulo. A fundação é responsável pela representação brasileira, incumbência que lhe tem sido designada pelo Ministério das Relações Exteriores.Brasil - O Pavilhão do Brasil tem uma área de 240 metros quadrados e está situado na histórica sede dos Jardins do Castelo, na margem oriental de Veneza. Intitulada Arquitetura, Cidade e Território, a exposição brasileira será inaugurada nesta sexta-feira, com a apresentação de maquetes e fotos das obras de Mendes da Rocha e Lelé. Na última edição da Mostra de Arquitetura da Bienal de Veneza (em 1996), o homenageado foi Oscar Niemeyer.O responsável pelo projeto de montagem e design do pavilhão este ano é o uruguaio Ernesto Tuneu, formado e com especialização na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), que vive no Brasil desde 1968. Trabalhando desde 1969, atua na área de museologia há cinco anos. Foi o responsável pela intervenção no Museu da Casa Brasileira, onde criou as salas expositivas. As curadoras são Glória Bayeux e Rosa Artigas.O Itamaraty também fechou um acordo para a itinerância da exposição de Lelé e Mendes da Rocha. Após Veneza, a mostra vai para a sede da Embaixada do Brasil em Roma, na Piazza Navona. Depois, segue para a Alemanha e a Holanda. Finalmente, volta ao Brasil e percorre São Paulo, Rio, Paraná e Rio Grande do Sul.

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