Bienal de Valência pensa a cidade ideal

Depois de uma primeira versão, no ano retrasado, com um tema que questionava a arte como virtude ou vício da comunicação e vice-versa, a Bienal de Valência deste ano, que começou no dia 6 e segue até o fim de setembro, reflete agora sobre o papel das cidades na organização do mundo moderno. A Cidade Ideal é o mote para uma série de atividades artísticas multidisciplinares (artes plásticas, arquitetura, cinema, desenho, teatro, música, dança, moda e publicidade) que estão modificando o dia-a-dia dos habitantes de Valência, uma simpática metrópole mediterrânea dividida entre tradição e modernidade."Queremos pensar a arte de ser cidade", declara, em todas as entrevistas que tem concedido à imprensa mundial, o diretor da Bienal, Luigi Settembrini. "É preciso levar em conta as diferenças e o equilíbrio entre essas diferenças, para que flua com dignidade a energia de todos os processos urbanos. A arte, incluindo nela todo o conhecimento e toda a informação que consegue gerar, pode contribuir de forma fundamental para a paz e a compreensão entre os povos."Um dos sucessos imediatos da Bienal, sobretudo por testar concretamente essa interação entre a arte e o cotidiano da cidade, é a exposição Solares, que interferiu em nada menos do que 37 terrenos vazios de Valência (aproveitados como estacionamentos improvisados). É uma proposta que dialoga com o evento Artecidade, que já mobiliza São Paulo há alguns anos. Em boa parte desses terrenos valencianos, há ruínas, paredes toscas, muros trincados, solos revolvidos pela violência de bombas. Os artistas criaram painéis de forte impacto visual, outros mais singelos, outros fortemente engajados - e o resultado é de uma eficiência comunicativa impressionante. "A cidade é um fenômeno complexo, poliédrico, difícil de definir, objeto de muitos campos de interesse e de nenhum em particular", comenta Settembrini. "Interessa à Bienal de Valência, que está apenas engatinhando, cultivar essa interdisciplinaridade de linguagens e experiências estéticas."Brasileiro - Outro ponto forte da bienal espanhola, com custo avaliado em 5 milhões de euros e que não tem sede própria, ficando espalhada por museus e galerias de toda a cidade, é a exposição de cem fotos do brasileiro Sebastião Salgado, que passou três meses fotografando habitantes típicos da cidade e batizou sua mostra de O Rosto, Espelho da Sociedade. "Às vezes, esquecemos a relação entre fotografia e memória e acho que essa característica é mais forte nos retratos", diz Salgado, em entrevista no catálogo da Bienal. "O importante é não perder de vista que a matéria principal da arte é o ser humano. Minhas fotografias sobre a cidade ideal trazem pessoas em vez de arquiteturas."

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