Bienal de SP recebe representante da Palestina

A arte é um recurso genuíno de mudança revolucionária, no sentido de transformar um mundo doente num mundo saudável. A citação do alemão Joseph Beuys é uma verdade aceita pelo artista Sliman Mansour, únicorepresentante da Palestina na 25.ª Bienal de São Paulo, quecomeça no dia 23.Entre os 190 artistas que representam 70 países, Mansourcarrega a bandeira de um povo sem território, acuado, envolvidonum conflito sem tréguas e regras. Sua arte é permeada por essarealidade, mas não só. Na Bienal de São Paulo, Mansour pretendemostrar uma continuação do conceito que criou e expõe há mais dedez anos: ele esculpe e pinta figuras humanas e painéis de barro usando terra palestina."Comecei trabalhando com barro durante a primeiraIntifada, em 1987", conta Mansour. "E eu me lembrava de comominha avó e outras mulheres de outras vilas costumavam fazerutensílios de barros para usar em casa", conta. É dessa formaque ele estabelece a relação entre povo e terra, entre históriae cultura no seu trabalho artístico.Mansour é um ativista da causa palestina, mas suabandeira é a da não-violência. Quando abriu sua primeiraexposição em Ramallah, na Palestina, em 1981, gozou de apenasquatro horas de exibição. O Exército israelense fechou a mostraalegando uso ilegal das cores vermelha, verde, branca e preta -as cores da bandeira palestina.Acostumado a essa luta, ele continuou a organizarexposições, instalações e performances na faixa de Gaza e aoredor do mundo, usando sua arte como instrumento político. E nãosó contra a política explícita de Israel. Em 1999, insurgiu-secontra o artista israelense David Chihuly, que construiu um murode gelo que derretia e irrigava terra ao seu redor.Para Mansour, tratava-se de propaganda israelense e dahistória excludente de Israel na região e ele organizou umprotesto contra o colega.Na sua mostra Dez Anos de Barro, ele causou polêmicaem pintar a Virgem Maria e o Menino Jesus feitos de lama seca."A idéia era reapropriar-se dessa representação e trazê-la docontexto cultural europeu, das tradições culturais européias,para o nosso contexto", afirmou o artista.Hoje, Mansour vive em Jerusalém, onde estabeleceu (comTayseer Barakat e Vera Tamari) o Al-Wasiti Art Center, em 1994.O amigo Tayseer é um agitador cultural. Também foi o criador doZiryab Café em Ramallah, espécie de reduto intelectual palestino palco de performances, mostras e discussões acaloradas.Para esses artistas da Palestina, o que torna seutrabalho marcadamente ligado à sua origem não é a militânciaexplícita, mas a ligação com as raízes, os hábitos, os rostos,os movimentos, a fala, a geografia dividida entre deserto emontanhas geladas. E, obviamente, a causa, que ajuda a mantersua coesão como povo. "E também como artistas", acreditaMansour."Quando eu trabalho tenho uma noção histórica dacoisa", explicou certa feita o amigo Tayseer Barakat. "Osantigos tinham uma filosofia e faziam sua arte com umacompreensão da vida em todos seus sentidos, não somente comoviam com seus olhos - a arte dos antigos tinha um paradigma, umestilo, e um dos componentes dela era o ritmo, que usavam nainfra-estrutura da narrativa", relembrou.Perseguir esse senso rítmico que permitia aos seusancestrais contar uma história enquanto desenhavam osacontecimentos é a ambição dos artistas palestinos. "Queroprimeiro ser reconhecido como artista e então como artistapalestino", diz Mansour. Investir-se dessa condição é essencialpara Mansour e seus parceiros. Com base em fábulas de infância,histórias mitológicas, fragmentos da literatura palestina enarrativas dos processos de trabalho são alimento de sua arte.Para Sliman Mansour, houve um hiato na tradição culturalpalestina após 40 anos de intervenção militar israelense nosterritórios ocupados. As ligações com o mundo árabe e a dinâmicaartística nas vilas, cidades e campos de refugiados foramlevadas a uma situação de estagnação. A criação do Al Wasiti ArtCenter buscou dar acesso ao povo palestino à sua herançacultura.Livros de arte em árabe, publicações especializadas,incentivos para artistas amadores, educação artística paracrianças e todo esforço no sentido de desenvolver conhecimento eexperiência foram empreendidos pelo centro. "A idéia era criaruma ponte entre a Palestina e o restante do mundo por meio daarte", considera.Dentro do tema central da 25.ª Bienal, IconografiasMetropolitanas, Mansour mostra uma arte que se apega a umdesejo de pátria, a cidades que são campos de refugiados,esmagadas pela pressão militar e pelo medo. A sala do artista namostra fica no segundo pavimento do prédio da Bienal, entre asrepresentações da Noruega, da Nicarágua, do Chipre e daTurquia.

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