Bielski, saga de dor e êxtase

Aposta audaciosa da Cia. Levante leva ao palco história esquecida de heroísmo

Jefferson del Rios, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2011 | 00h00

Existiu um quilombo judeu nas florestas da Bielo-Rússia durante a 2.ª Guerra Mundial. O paralelismo entre os negros fugidos do cativeiro brasileiro e essa comunidade é tentador. Se a maior parte dos africanos rebeldes acabou derrotada - e Palmares é o caso exemplar -, os desesperados, mas aguerridos, judeus dessa região encravada entre a Rússia, Polônia e Ucrânia sobreviveram à caçada nazista em uma página de grande heroísmo relativamente esquecida. Seus implacáveis comandantes foram os irmãos Bielski (Túvia, Asael e Zus).

As circunstâncias em que agiram determinaram que a história deles tivesse ficado menos conhecida. Porque não contém um componente de sacrifício absoluto. Esses judeus venceram dissidências internas, covardias intramuros, oportunismos entre irmãos de sangue e crença até que se forjou uma unidade de dureza por vezes cruel.

Em meio ao horror e ao frio de 30 graus abaixo de zero, foi preciso matar para viver. Não é um enredo impecável embora compreensível. Eles viveram dois anos na mata, atravessando pântanos, improvisando soluções de vida a partir do nada. Conseguiram chegar ao fim da jornada com 1.200 pessoas vivas.

O espetáculo Bielski, da Cia. Levante, pretende sintetizar a luta em termos factuais e de metáfora. É uma aposta audaciosa que deixa de lado - e não haveria outro jeito - o filme Um Ato de Liberdade, de Edward Zwick, com Daniel Craig, que narra a mesma saga com os recursos espetaculares do cinema, sobretudo os de locação.

O dramaturgo e encenador Antonio Rogério Toscano quis reiterar a força da ação coletiva, acrescentando a ela um toque simbólico e ao mesmo tempo crítico às façanhas dos irmãos Bielski, sobretudo Túvia, o mais destacado deles, inclusive na brutalidade, como uma espécie de "desconstrução do herói". Ao mesmo tempo, Toscano aparenta buscar algo de místico nesse homem, como se ele tivesse visões. Um guerreiro "tomado", como o pai de santo "recebe" seu Orixá. Temos assim um bielo-russo Zumbi, profeta guerrilheiro com um gestual de pintura expressionista que sugere crucificação e êxtase. O clima é reforçado pela música executada e cantada em cena com instrumentos de sopro e de percussão, o que une a doçura da flauta à crispação afro-militar de um tambor.

O projeto cênico encontra obstáculos na precariedade do espaço de representação e na linguagem didática que diminui seu impacto dramático. Não há uma fusão tranquila da direção de movimento e a interpretação. Cria-se um hibridismo de linguagem que dispersa a prometida "contundência" de Bielski. O elenco, pequeno para um painel histórico amplo, deixa entrever falta de unidade e interiorização. Mesmo assim, consegue instantes de fluxo emocional. São cintilações quando o melhor de cada um se sobrepõe à carga pesada de conceitos expressos no programa (um núcleo de pesquisa teatral pautado pelo estudo do jogo do ator no espaço vazio "brookiano". Nesse espaço desejante que precisa ser completado, preenchido por significações derivadas da presença do ator "em estado criativo desejante").

O espectador, com a melhor boa vontade, não é obrigado a saber o que vem a ser um espaço "brookiano", neologismo forjado com o nome do encenador inglês Peter Brook. Aí, complica. Como ficam estranhas redundâncias do texto, como "terrível morticínio" e "metralhadas até morrer".

O programa informa em seguida que foram usados textos de Peter Dufy, Nechama Tec, Paul Celan, Heiner Muller, Bertolt Brecht e Kurt Yoos. Nechma Tec e Dufy, historiadores fundamentais de Bielski cedem lugar ao inevitável recado ideológico de Brecht. Já que é assim, talvez fosse interessante incluir o estudo O Antissemitismo na Era Vargas, de Maria Luiza Tucci Carneiro (Editora Perspectiva). Há um paralelismo entre a taiga, as florestas da Europa do Norte e o intrincado "mato" dos tristes trópicos.

A Cia. Levante reúne artistas sérios e os percalços do projeto não lhe tira o mérito intrínseco. Numa caminhada com altos e baixos é possível vislumbrar a voz do poeta romeno Paul Cellan, de família judia, que passou por campos de concentração e escreveu que "Verde mofo é a casa do esquecimento" ; e que naqueles "o leite negro da aurora nós o bebemos à tarde".

BIELSKI

Sesc Consolação. Espaço Beta (70 min.). R. Doutor Vila Nova, 245 - Vila Buarque.

2ª e 3ª, às 21 h. R$ 10. 14 anos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.