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Bicocca traz arte para (e pelo) público

Em Milão, bairro industrial se torna centro da produção contemporânea

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2013 | 02h09

MILÃO - A visão é, no mínimo, majestosa. Em uma grande área de um imenso galpão de cerca de 15 mil metros quadrados e um pé direito de quatro andares, sete torres de concreto se estendem e impressionam o olhar do visitante. Ao nos depararmos com os monumentos de concreto armado (cada um pesando 90 toneladas), distribuídos em uma espécie de ruína atemporal, temos a dimensão das marcas deixadas pelos horrores do holocausto e da 2ª Guerra. Esta é Seven Heavenly Palaces (Os Sete Palácios Celestes), do alemão Anselm Kiefer, uma das poucas obras que compõem o acervo permanente do Hangar Bicocca, espaço de exposição da arte contemporânea que cada vez mais atrai a atenção mundial. Mas afinal, que hangar é este que foi criado em 2004 e desde sua revitalização, em 2012, recebeu cerca de 200 mil visitantes e abrigou obras de artistas do naipe de Kiefer, Tomas Saraceno, Apichatpong Weerasethakul, Carsten Nicolai e o visionário americano Mike Kelley, que atualmente ocupa o espaço com a mostra Eternity is a Long Time?.

Mais que isso, ao receber nos próximos dois anos nomes como Dieter Roth, Björn Rogh, Micol Assaël, Cildo Meirelles, entre outros, ele pretende se tornar um dos pontos de referência da arte contemporânea na Europa e no mundo. A cidade que o abriga? Paris? Londres? Berlim? Nova York?

Não. Milão. Ou Melhor, o quartiere Bicocca, antigo distrito industrial do nordeste milanês que, com a transformação de uma de suas maiores construções em espaço dedicado à arte, pretende realizar a façanha de se tornar um dos grandes centros de experimentação, criação e difusão da arte do século 21. Nada mal para um lugar cujo nome lembra, na verdade, a ideia de moradia humilde, pequena e mal ajeitada. Bicocca em italiano é sinônimo de barraco, choupana, casebre. O bairro ganhou este nome ainda no século15 por conta da ironia sobre o casarão que a nobre família Arcimboldi ergueu em um terreno elevado da região. Originalmente idealizada para ser uma espécie de fortaleza e/ou castelo, suas proporções modestas mais a faziam ser chamada, ironicamente, de bicocca.

O trocadilho não poderia ser mais distante da atual dimensão do Hangar Bicocca, que no passado abrigou as instalações da Breda, companhia de construção de trens. Hoje, após ser arrendado pela Pirelli (cujo quartel general é em Bicocca), parece ter seu futuro traçado para ter cada vez mais grandes dimensões não só físicas como culturais. Prova disso é que, além dos dados acima, acaba de dar mais um passo em direção ao crescimento.

No dia 3, Marco Tronchetti Provera, presidente da Pirelli, e Adrea Lissoni, curador artístico do HB, receberam a imprensa internacional para apresentar as suas mais novas conquistas: o nome de Vicente Todolí, que foi diretor da Tate Modern de Londres de 2003 a 2010, como novo consultor artístico do espaço; e a programação artística do HB de outubro deste ano a abril de 2015. "Estamos muito contentes e orgulhosos. Esta nova empreitada vai ao encontro de nossa história de envolvimento com a cultura, como o calendário, a fotografia, a moda, o design e, claro, a arte contemporânea."

A Pirelli, a propósito, é a criadora e mantenedora do espaço desde 2004, em parceria com a Região da Lombardia. "Não queremos nos fecharmos em nosso espaço, mas abri-lo à população de Milão, da Itália e do mundo. Que este seja um ponto de importância mundial, que, como a história da nossa empresa, seja sempre inovador e contribua sempre para a construção do futuro", completou o presidente.

Futuro. Para dar cabo dos planos de sua mantenedora, o Hangar Bicocca ganhou o olhar único de Todolí. Famoso por sua forma dinâmica de gerir espaços culturais, o espanhol de Valência falou de suas pretensões. "O que mais me motivou a aceitar o trabalho é que, além do fato de eu poder ter liberdade para criar, este é um lugar aberto ao público, feito para receber as pessoas, que é flexível. E minha agenda também vai ser", comentou Todolí, que, após deixar o cargo na Tate, instituição que, graças à sua gestão, hoje recebe cerca de 5 milhões de visitantes por ano, afirmou que seria, então, curador independente e que se dedicaria a uma nova empreitada: "Museus não devem ir atrás de números, mas sim de inovação. Após anos de Tate, na zona de conforto, em que precisava de novos desafios, me mudei para a Espanha, cuido dos meus olivais e sou feliz."

Além de conciliar sua atividade de produtor de azeite e consultor artístico, Todolí tem o desafio de ajudar o HB a entrar definitivamente no mapa dos grandes centros de arte contemporânea da atualidade. "Nosso maior desafio agora, sinceramente, não é agradar a crítica mundial, nem os mantenedores, nem a imprensa, mas sim saber como vai reagir o público", afirmou.

Para isso, além das obras permanentes do italiano Fausto Melotti, que ocupam a área em torno dos galpões do HB, e das torres de Kiefer, Lissoni e Todolí, o espaço conta com nomes de peso do circuito da arte contemporânea. A lista inclui a primeira grande retrospectiva do suíço Dieter Roth, famoso por seu trabalho com material reciclável e orgânico, uma instalação musical de Ragnar Kjartansson, uma retrospectiva inédita de instalações de Cildo Meirelles, as esculturas do mexicano Damián Ortega e uma retrospectiva do americano Joan Jonas, entre outras.

A opção por mostras individuais, em vez de temáticas ou coletivas, é outro ponto que conta a favor do HB. "Este não é um espaço para teses dos curadores, mas sim para, por meio da história de cada artista, o público poder conhecer a história da arte. Não vamos agradar as pessoas, mas estimulá-las, desafiá-las e transformá-las. Este não é um espaço para o público, mas pelo público", conclui Todolí.

A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA PIRELLI.

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