Bicho-papão

Daqui a alguns dias, faz cem anos que Gregor Samsa acordou de sonhos agitados, transformado num inseto repugnante. O centenário é e não é discutível. Concretamente, a metamorfose se deu três anos antes, quando, em 17 de novembro de 1912, Franz Kafka (1883-1924) começou a escrever o que a princípio seria um conto e acabou virando, ao cabo de 20 dias, a mais longa e célebre de suas novelas. Como A Metamorfose só chegou às livrarias em novembro de 1915, ficou sendo este o seu natalício oficial. 

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2015 | 02h00

Tenho uma vaga lembrança de o ter lido pela primeira vez em alguma publicação, quem sabe numa edição especial do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, no final da década de 1950. Nessa época, Kafka parecia reinar absoluto em nosso arraial literário, ele próprio, em curtos relatos traduzidos em geral do francês, e seus epígonos nacionais, cujo exemplo mais memorável continua sendo Sérgio Tapajós (o diplomata, não o cineasta), de quem o SDJB publicou um conto, salvo engano intitulado Necrose, indisfarçavelmente inspirado em A Metamorfose. A Colônia Penal eu li, pouco tempo depois, na revista Senhor. 

Àquela altura, já havia comprado A Metamorfose na tradução francesa de Alexandre Vialatte para a Gallimard, acrescida de 15 parábolas. Foi quando descobri que não era bem uma banal “barata” o artrópode imaginado por Kafka. Vialatte o traduzira por “vermine” e os ingleses, desde a pioneira dupla Edwin-Willa Muir, por “vermin”, palavras que, se bem expressam o alemão “Ungeziefer”, aos nossos ouvidos soam como “verme” - e não foi transformado num protozoário que Samsa acordou naquela manhã.

Modesto Carone, nosso mais notável tradutor e escoliasta de Kafka, preferiu um genérico “inseto monstruoso”, por isso mesmo mais expressivo. Também foi esperta sua opção pelo verbo metamorfosear, em vez do transformar adotado por seus colegas europeus e americanos. E assim é que, na edição brasileira da Companhia das Letras, Samsa acorda “metamorfoseado num inseto monstruoso”. 

Muita conversa fiada rendeu o freak kafkiano. Aqui e lá fora. Na primeira leitura, embatuquei com suas dimensões. Samsa me parecia reduzido às dimensões de uma barata; mas como poderia um blatídeo “empurrar uma cadeira até a janela” (pág. 44) e ter uma maçã, minúscula que fosse, alojada em seu corpo (pág. 59)? Ainda não havia captado a essência do realismo absurdo do escritor.

O britânico James Hawes apostou na hipótese de que Kafka havia se inspirado naquela passagem de Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, em que Werther, extasiado diante da vegetação ao seu redor, sente vontade de “transformar-se em abelha (em alemão, Meiaenkäfer)” para flutuar naquele “oceano de perfumes e deles fazer o único alimento”. O metafórico e urbano inseto de Kafka nada tem a ver, a meu ver, com a romântica e bucólica abelha de Goethe. E desde quando podemos qualificar de abelha uma criatura desprezível e nojenta como o metamorfoseado Samsa?

Se há algo que não mais se discute a respeito da obra de Kafka é seu caráter presciente. Quase tudo em seus livros é história que ainda não aconteceu. Os mecanismos da barbárie totalitária sedimentada a partir da década de 1930 haviam sido antecipados em O Castelo, O Processo e A Colônia Penal com absoluta precisão. “Ungeziefer” era o termo com que os nazistas se referiam aos judeus e “extermínio de insetos”, um dos eufemismos obscenos mais usados para mascarar o holocausto. É possível estender a presciência kafkiana até a guerra no Iraque, inicialmente “combatida” não por soldados mas por frios e zelosos burocratas dos serviços de inteligência. Ninguém entendia mais de burocracia do que Kafka.

Uma esquerda sectária e tapada desprezou tudo isso, fixando-se numa imagem estereotipada do escritor, do jovem Franz socialmente alienado, que no dia em que estourou a Primeira Guerra Mundial limitou-se a anotar em seu diário apenas duas frases: “Alemanha declarou guerra à Rússia. Piscina de tarde”. E foi dar seus mergulhos. Era exímio nadador. 

Antes de mais nada, é preciso entender seu background social e cultural: filho da sólida burguesia germano-judaica de Praga, ele, de certo modo, cresceu isolado das desgraças do mundo. Justificável que não tenha escrito explicitamente sobre os males políticos e sociais de sua época, nem os tenha submetido a algum tipo de corretivo moral. Fez algo mais consequente: definiu a estrutura da tirania e do terror, como bem disseram Gilles Deleuze e Félix Guattari. Inclusive a tirania e o terror da burocracia feudal e os absurdos do declinante império austro-húngaro. 

Relegado ao ostracismo e satanizado na Rússia e nos países do Leste Europeu, que o viam como um bicho-papão, um antirracionalista decadente, uma “força divisionista sem espaço numa sociedade empenhada na construção do socialismo”, ganhou um empurrão de Sartre no Congresso Pela Paz e Pelo Desarmamento, em 1962, justo em Moscou e no auge da Guerra Fria. O puxão de orelhas sartriano estimularia a realização, no ano seguinte, de um simpósio internacional sobre a vida e obra de Kafka, em Praga, palco de um dos mais inflamados rachas da intelligentsia marxista. Roger Garaudy e Ernst Fischer tomaram a defesa do escritor, e apanharam um bocado de um comissário da cultura da Alemanha Oriental.

Antes de submeter A Metamorfose à apreciação de uma revista editada por Robert Musil, Kafka a leu para um grupo de amigos. Todos riram à beça. Como não rir de uma insólita tragicomédia como a vivida por Gregor Samsa? Sempre me lembro de Thelma Ritter quando a faxineira da família Samsa enxota o (por assim dizer) Gregor, xingando-o de “velho bicho sujo”. 

Há uns 20 anos, David Foster Wallace fez uma bela conferência sobre o humor kafkiano, explicando por que seus alunos, educados pela indústria de entretenimento americana e a revista MAD, não conseguiam “rir com Kafka”. Demasiado sutil, diagnosticou. Um dos exemplos de sutileza por ele destacados era esta frase: “A esperança existe, mas não para nós”. Kafkianamente sutil, digamos assim. 

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