Biblioteca do Pátio do Colégio guarda história dos jesuítas

Houve uma época em que a celebração da Semana Santa em São Paulo estava longe de ser apenas umaoportunidade para escapar da cidade e aproveitar o feriado. Era uma semana de reclusão, em que as pessoas ficavam mais em casa, praticavam o jejum, rezavam e praticamente só saíam para ir àigreja. Em 1775, tratava-se de um evento tão importante que havia até um guia, o Manual da Semana Santa, elaborado pelos jesuítas, que explicava à população como deveria se comportar.Um exemplar do livro é uma das raridades da Biblioteca do Pátio do Colégio, que será inaugurada oficialmente no fim do mês.A biblioteca especializa-se em história do Brasil e na trajetória da Companhia de Jesus no País. Para isso, estão sendo garimpadas obras espalhadas por todos os colégios fundados porjesuítas, no Rio, em São Paulo e em Minas. "Aqui é o lugar natural para reunir todo esse acervo, pois a capital paulista foi fundada pelos jesuítas", explica o diretor de Desenvolvimento de Projetos Culturais do Pátio do Colégio, padreCésar Augusto dos Santos. Quando estiver pronto, o local será anexado ao Museu do Pátio, tornando-se um dos principais pólos culturais do centro.Segundo Santos, a biblioteca reunirá cerca de 20 mil volumes, muitos deles esgotados, que contarão grande parte da história da Capitania de São Paulo e do País. "A história da Companhia de Jesus se confunde com a do Brasil."O religioso cita obras que enfocam a vida dos responsáveis pela fundação da cidade, em 1554. Um deles é Capitania de São Vicente, escrito pelo padre José de Anchieta em 1560 - a biblioteca tem um exemplar da edição de 1946. Na carta, o pioneiro descreve a flora e a fauna da Capitania de São Vicente, cuja riqueza de detalhes serve como referência aantropólogos e historiadores.Outra obra de referência é a Vida do Venerável Padre José de Anchieta da Companhia de Jesus, Taumaturgo do Novo Mundo na Província do Brasil, de Simão de Vasconcelos, editado emLisboa, em 1672. O livro trata da vida do religioso e descreve o País e o povo no início da colonização.Entre os projetos para a biblioteca está adquirir pelo menos algumas cartas originais de Anchieta, atualmente em Roma. "Vamos ver se é possível eles nos remeterem alguns documentos para que sejam guardados aqui."Documentos - Além dos livros, a população poderá consultar uma série de documentos históricos originais, muitos inéditos. Um deles, de 1724, trata da vestimenta do hábito em umnovo integrante da Ordem Terceira de São Francisco. "O documento mostra como o ingresso era um privilégio das elites", explica a curadora do Centro Cultural do Pátio do Colégio, MariaAparecida Lomônaco. "É muito bom as pessoas terem acesso a esse tipo de documentação, pois revela outros aspectos da história que estão começando a ser estudados agora."Outros documentos são curiosos. Em uma carta escrita em 1708, irmão Manoel Ribeiro descreve a descoberta de uma caixa com ossos na igreja do Pátio do Colégio, que acreditava serem deAnchieta. "Se desenterrou junto ao altar um caixote com dez ossos, cujos padres mandaram guardar como sendo do venerável José de Anchieta", diz o documento.Até hoje, não se sabe com precisão onde estão os restos mortais do fundador. Recentemente, foram descobertos no Pátio do Colégio ossos que podem ser os de Anchieta. O material está sendo analisado pela Universidade Estadual de Campinas(Unicamp).Reedição - Uma das principais obras que farão parte da biblioteca do Pátio do Colégio ainda será lançada. Trata-se da reedição do livro A História da Companhia de Jesus no Brasil, do padre jesuíta Serafim Leite, que sairá pela Loyola no aniversário de São Paulo, em 25 de janeiro. Com 6.700 páginas em quatro volumes, é a principal referência da presença daCompanhia de Jesus no Brasil."O livro conta os 200 primeiros anos da companhia no Brasil", explica o diretor de Desenvolvimento de Projetos Culturais do Pátio do Colégio, padre César Augusto dos Santos Santos. A obra abrange a fundação de São Paulo e a expulsão dos jesuítas pelos bandeirantes em 1640, pelo fato de os religiosos serem contra escravizar índios.O livro foi publicado em dez volumes, editadosanualmente entre 1938 e 1948. Leite descreve, por exemplo, o interesse dos jesuítas em transformar colégios brasileiros em universidades, no período colonial. "O governo português, porém proibiu a proposta por interesses políticos", explica Santos. Outros pontos interessantes descritos pelo autor são a influência política da companhia e a descrição de locais famosos como a região do Ibirapuera. "Era um local onde havia muitastribos de índios", afirma o padre.A reedição contará com cerca de 200 imagens atuais das propriedades da Companhia de Jesus no Brasil, em Portugal e na Itália. "A idéia é tornar o livro referência artística", diz oprodutor Augusto Pinto, que está coordenando a produção das fotos. Ele destaca que David Dalman, responsável pelas imagens, descobriu locais abandonados e em ruínas, principalmente noNordeste.

Agencia Estado,

06 de outubro de 2001 | 17h18

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