BIBLIOTECA DE BABEL DA FICÇÃO

O criador do Cavaleiro da Triste Figura foi o primeiro a elaborar literariamente a materialidade do texto

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA É PROFESSOR DE LITERATURA COMPARADA DA UERJ, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2012 | 02h10

Como dimensionar a novidade representada pelo aparecimento do Dom Quixote? Machado de Assis demonstrou um entendimento propriamente cervantino da questão. No capítulo seis de Quincas Borba, o personagem homônimo tenta explicar ao ignaro Rubião o princípio do Humanitismo. Cansado, lança mão de recurso infalível:

" - (...) Vês este livro? É Dom Quixote. Se eu destruir o meu exemplar, não elimino a obra que continua eterna nos exemplares subsistentes e nas edições posteriores. Eterna e bela, belamente eterna, como este mundo divino e supradivino".

De fato, a materialidade do livro, multiplicado em inúmeras edições, favoreceu a recepção da obra-prima. O Quixote foi um dos primeiros textos literários a beneficiar-se amplamente da forma do livro impresso e dos novos circuitos de difusão possibilitados pela Galáxia de Gutenberg. O êxito imediato de vendas, a rapidez com que traduções foram preparadas e mesmo o envio de exemplares para o Novo Mundo não teriam ocorrido sem o advento da imprensa.

Os números são impressionantes: cinco edições se esgotaram no ano de publicação da primeira parte, 1605; dois anos depois, nova edição; em 1608, mais uma. A tradução de Thomas Shelton para o inglês, saída em 1612, foi particularmente importante, pois William Shakespeare e John Fletcher parecem tê-la tomado como fonte para a escrita de uma peça cujo texto se perdeu: Cardenio. Na brilhante reconstrução do episódio por Roger Chartier, descobre-se que, antes dessa tradução, as aventuras do Quixote já inspiravam outras adaptações!

Há mais: com uma celeridade que ainda hoje seria pouco provável, os personagens do romance foram literalmente extraídos das páginas do livro, se tornando figuras de carne e osso. Fantasias de Dom Quixote e Sancho Pança disputavam prêmios em feiras ou simplesmente alegravam festas na corte. De igual modo, o protagonista se transformou em adjetivo universalmente empregado: quixotesco. E um caso impressionante, que bem poderia pertencer ao romance: em 1607, na província de Parinochas, no Peru colonial, organizou-se um torneio entre cavaleiros. Um deles decidiu apresentar-se como o "Cavaleiro da Triste Figura". Não se sabe se ganhou a justa, mas certamente esclareceu o êxito incomum do Quixote.

Cervantes foi o primeiro autor a elaborar literariamente a materialidade do texto impresso, criando uma ficção de diversos níveis; contudo, sem descuidar do interesse da ação narrativa - exatamente como Shakespeare realizou no teatro. Esse ponto é decisivo e explode no Prólogo da primeira parte:

"(...) caríssimo leitor (…) estás em tua casa, onde és senhor (…). Tudo isso te isenta e de te deixa livre de todo respeito e obrigação, de modo que podes dizer tudo aquilo que pensares da história, sem medo de que te caluniem pelo mal ou te premiem pelo bem que disseres dela".

Se, na célebre frase de Whitehead, a filosofia ocidental consiste numa extensa nota de pé de página à obra de Platão, o papel do autor no romance ocidental gravita em torno dessa passagem. Vale dizer, o texto de Cervantes transforma em forma propriamente literária o fosso que se abre entre "a função autor" e a "autoria última" do sentido, sempre realizada por leitores individuais. Nesse sentido, a história editorial do Quixote (especialmente sua continuação apócrifa) estaria borgianamente anunciada nessa citação. Afinal, é possível identificar ao menos um dos "desocupados leitores" referidos ironicamente por Cervantes. Ele teria utilizado o pseudônimo de Alonso Fernández de Avellaneda - um Pierre Menard um tanto apressado, é verdade; mas exitoso, pois soube completar seu livro... No Prólogo à segunda parte do Dom Quixote, em diálogo constante com o leitor, Cervantes expressa um propósito inalcançável:

"E não digas mais nada a ele, nem eu quero te dizer, apenas avisar que consideres que esta segunda parte do Dom Quixote que te ofereço é cortada pelo mesmo artífice e no mesmo tecido que a primeira, e que nela te dou Dom Quixote expandido e finalmente morto e sepultado, para que ninguém se atreva a levantar novos testemunhos, pois bastam os passados (…)".

Entenda-se bem: as aventuras relatadas por Cervantes - e ninguém mais. Contudo, se o leitor é dono de sua opinião e possui a liberdade de ler segundo os caprichos do momento, o desejo autoral de controle do texto é utópico. As infinitas reescritas do Quixote desde sempre estariam anunciadas na própria forma da composição do livro. E composição num duplo sentido: escrita do manuscrito e sua posterior publicação impressa.

No capítulo 6 da primeira parte, o cura e o barbeiro realizam uma autêntica razia na biblioteca do fidalgo. Então, encontram A Galateia do próprio Cervantes. O cura é crítico severo: "(...) Seu livro tem alguma coisa de boa invenção: propõe algo mas não conclui nada. É preciso esperar a segunda parte que promete: talvez com a emenda alcance de todo a misericórdia que agora lhe é negada". A segunda parte que Cervantes não chegou a escrever - talvez porque nenhum Avellaneda o tenha provocado... Aliás, Machado de Assis apreendeu a lição cervantina, defendendo em Dom Casmurro a superioridade dos "livros omissos", inconclusos, os que convocam a imaginação leitora.

O que dizer do capítulo 9, também da primeira parte, quando o leitor descobre que está lendo a tradução para o espanhol do texto de um historiador árabe, Cide Hamete Benengeli? Ou dos capítulos da segunda parte, nos quais Cervantes inventa a fundamental figura do "personagem leitor" da obra, isto é, intérprete de si mesmo e do próprio autor?

O melhor comentário de Borges sobre o Quixote encontra-se em A Biblioteca de Babel, embora nele não trate diretamente da obra-prima - uma circunstância perfeitamente quixotesca. No conto, anuncia o "livro total", capaz de concentrar "o universo (que outros chamam a Biblioteca)".

Dom Quixote é a Biblioteca de Babel da arte narrativa. Nas leituras de Alonso Quijano, metamorfoseado em Quixote, é possível vislumbrar as veredas que o romance palmilhou e ainda hoje arrisca.

Ou: Dom Quixote é o tabuleiro de xadrez da literatura, uma autêntica máquina verbal, cujos temas, peripécias e personagens compõem a inesgotável arte combinatória da ficção.

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