Bibi Ferreira, uma vida amorosa

Aos 70 anos de carreira, ela canta em português em disco com Francis Hime e planeja espetáculo

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2011 | 00h00

Bibi Ferreira quer se desvencilhar de Edith Piaf. Aos 70 anos de carreira e a um de virar nonagenária, ela continua amando o repertório com o qual é identificada há quase 30 anos - o espetáculo que homenageia o ícone francês nasceu em 1983 e rende até hoje. Mas neste 2011 a cantora atriz e diretora vai se dedicar mais ao cancioneiro brasileiro e norte-americano.

Pela Biscoito Fino, está lançando o CD Bibi Ferreira Brasileira - Uma Suíte de Amor, gravado com Francis Hime ao piano, e com canções consagradas de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso, Baden Powell, Roberto Carlos, Adriana Calcanhotto, Cazuza, do próprio Francis e de outros compositores.

Mais para o meio do ano, talvez em junho, vai se voltar a clássicos saídos de musicais da Broadway, como Memory, de Cats, America, de West Side Story, e My Favourite Things, de A Noviça Rebelde.

"Ainda precisamos de um lugar para esse espetáculo, já que o Canecão fechou. Será o momento de cantar músicas em inglês, de musicais que eu não fiz. Vou juntar com musicais que eu fiz, como My Fair Lady, Alô Dolly, Gota D"Água e Brasileiro, Profissão: Esperança", contou Bibi no fim da tarde da última quinta-feira, quando conversou com o Estado diante do Pão de Açúcar - vista de seu aristocrático apartamento no Flamengo. É lá que se cerca de livros, gatos e empregados, amigos e devotados.

"Uma das grandes razões de fazer um disco em português é tirar um pouco dessa marca da Piaf e da Amália Rodrigues (espetáculo de dez anos atrás que também teve vida longa). Foram 27 anos de Piaf. Já aconteceu de eu estar na Argentina cantando tango e gritarem: "Canta Piaf!"", brinca Bibi, que gravou o disco pensando na neta, Cláudia, de 33 anos, que se casou no sábado. Na cerimônia, Bibi programou-se para dedicar aos noivos Eu Sei Que Vou te Amar.

O standard de Tom e Vinicius é um dos momentos lindos do CD: a voz de Bibi, a dramaticidade no ponto certo, o piano de Francis, o sax soprano de Dirceu Leite. "Bibi é sensacional, uma artista completa. Ela gravou às vezes de primeira. Tem canções que a gente já imaginava na voz dela, mas outras, como Vambora, da Adriana, e Todo Amor Que Houver Nessa Vida, na qual ela fala a letra, não", diz Francis, que trabalhou em trio, com Bibi e sua mulher, Olivia Hime, diretora artística da Biscoito Fino, da escolha do repertório aos arranjos.

"Eu queria canções carinhosas, de romance, e que estivessem dentro da minha tessitura popular. Se colocasse uma nota mais lírica, ficaria ridículo", diz Bibi, que gostaria de fazer um volume 2. "Mas só se esse tiver aceitação, o que é difícil hoje..."

Aniversários. Bibi sabe das coisas, é mulher do seu tempo. Nascida em lar artístico, virou atriz "por preguiça". Só passou a ter real prazer com sua arte quando começou a cantar em cena. "Quando estreei como protagonista, em 1941, entrei como uma imbecil. Fui empurrada pelo meu pai. Eu era, eu sou muito preguiçosa. "Deixa pra amanhã" é uma das minhas frases preferidas...", ela se diverte.

"Como não tinha profissão definida, virei atriz. Quando fiz My Fair Lady (em 1962), aí eu ia com prazer para o teatro. No palco, dou o que tenho de melhor. Ninguém me interrompe, ninguém diz: "Bibi, telefone!""

Ela não pensou nos 70 anos de carreira - pensaram por ela. Tampouco refletiu sobre os 90, em junho de 2012. "O que são 90 anos? A única coisa que muda é que não tenho mais namorado. Como de tudo, bebo de tudo. Ontem mesmo tomei dois daikiris."

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