Bibi Ferreira revive o fado de Amália Rodrigues

A partir de sexta-feira a atriz Bibi Ferreira ganha nova personalidade. Depois de ser a angustiada Edith Piaf, a doce Elisa de My Fair Lady e a desesperada Joana, a Medéia brasileira de Gota d´Água, ela vai viver no palco a cantora portuguesa Amália Rodrigues, que morreu há sete anos, depois de tornar-se símbolo do fado e mesmo de Portugal. O espetáculo tem o nome Bibi Vive Amália e inaugura a Ribalta, nova casa de espetáculos de luxo, no Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste do Rio, e vai para São Paulo na próxima semana, onde abre o Teatro Santo Agostinho."É a minha peça mais difícil, porque vou cantar em uma língua que não é minha, mas é conhecida de todos os que me ouvirão. E tenho de reviver uma personagem da qual todos se lembram, cantando músicas com as quais não tenho muita intimidade", contava Bibi durante a semana, numa rara oportunidade em que falou com a reportagem. "Não conheci Amália pessoalmente, embora a tenha visto cantar muitas vezes e amasse sua arte. Soube por intermédio de amigos comuns que ela um dia disse que eu poderia vivê-la no palco e levei o projeto adiante."Não foi de repente. Quando se preparava para começar a produção do espetáculo, em 1994, Amália Rodrigues morreu e Bibi achou que sua homenagem podia ser entendida como exploração barata. Além disso, ela não se sentia preparada. Foi preciso ser convencida pelo diretor e autor do texto, o português Tiago Torres da Silva, amigo íntimo da fadista e diretor dos espetáculos de seus últimos anos de vida. Ele trouxe, para acompanhar Bibi, músicos que tocaram com Amália, inclusive o maestro Nilson Melin, que fez os arranjos para seis instrumentos. Entre os músicos da montagem de Bibi está Vítor Lopes, que tocava guitarra portuguesa com a fadista.No palco, Bibi canta fados que fizeram sucesso com a cantora e fala textos dela, usando, em cena, alguns de seus figurinos. "Para facilitar a compreensão, digo que a montagem será um monólogo cantado. Mas o espetáculo não é apenas isso, pois terei seis músicos no palco e um narrador, Nilson Raman, dividindo a cena comigo", avisa ela. "O mais difícil é conseguir o sotaque português certo, falando ou cantando, sem cair na caricatura que nós brasileiros fazemos quando tentamos imitar o sotaque deles. Seria mais fácil cantar em francês ou mesmo alemão, porque há muitos portugueses no Brasil e tenho de deixá-los satisfeitos."Por isso, Bibi vive uma excitação nervosa, embora esteja completando 60 anos de carreira com esse espetáculo. O tempo de carreira não é importante, para ela, nem o fato de sua história pessoal se confundir com a do próprio teatro brasileiro. "Tive um tipo de criação que não me permitiu escolher a profissão. Quando adolescente, estudei música e canto porque gostava, mas, aos 19 anos, subi num palco porque meu pai, o ator Procópio Ferreira, precisava de uma atriz para seu elenco", lembra ela. "Naquele tempo, a gente não tinha opinião, não decidia a nossa vida. Ainda mais no meu caso, pois fui criada por minha mãe com muita rigidez; ela era separada de meu pai, que vivia com minha avó e mais duas tias minhas. Costumo dizer que fui criada numa Casa de Bernarda Alba - aquela tragédia de García Lorca em que todos os personagens são femininos."Olhando o passado, Bibi só se orgulha de ter vivido do teatro durante seus 79 anos (completados na próxima sexta-feira). Nos últimos anos, especialmente, não fez cinema ou televisão - só teatro. Enquanto ensaia, vai-se tornando íntima do repertório de Amália Rodrigues e concentrando-se para transformar-se nela, no palco. Enquanto fala com a reportagem, não se furta em cantar trechos de fados, ao telefone, talvez para se certificar de que esteja no caminho certo. "Amália era uma mulher de grande beleza física, tinha nobreza cênica. Usando roupas de seu figurino e penteando o cabelo de forma adequada, consigo parecer-me com ela", diz Bibi. "O que me deixa segura é estar em companhia de profissionais que a acompanharam."

Agencia Estado,

30 de maio de 2001 | 16h57

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