Bibi Ferreira festeja 90 anos com novo espetáculo

A sala vazia parecia estar à sua espera. Como se fosse um palco, minutos antes de as cortinas abrirem. O cenário tinha pompa: poltronas imponentes, móveis antigos e, como toque final, a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar emoldurados na janela imensa. Gravador e câmera já estavam a postos. Só faltava mesmo que a porta larga se abrisse.

AE, Agência Estado

01 de agosto de 2012 | 10h08

Dá para ouvir os passos firmes no assoalho de mármore. Bibi Ferreira, 90 anos, caminha de jeito empertigado. De cima do salto bem alto, que ajuda a alongar os seus pouco mais de 1,50 m, ela olha para frente, sem se fixar em nada. Sabe que é observada. Sabe que está diante do público. Uma plateia diminuta, é verdade. Só repórter e fotógrafo. Mas ainda assim, plateia. A fala e o sorriso têm de surgir no momento preciso. Ela sabe exatamente como fazer.

Falta pouco mais de uma semana para sua estreia em São Paulo. No dia 10, o terceiro sinal vai soar de novo. As luzes, Bibi diz que adora as luzes, vão se acender mais uma vez. Deve ser natural para quem praticamente nasceu dentro do teatro - fez sua primeira aparição em uma peça com apenas 24 dias de nascida. "Mas sabe que eu ainda sinto uma angústia naqueles instantes antes de entrar em cena? Aquele lugar, depois que você sai do camarim, e ainda não está no palco. Aquele cantinho... É ali que eu sinto um terror. Frank Sinatra dizia que sofria nessa hora. E olha que era o Frank Sinatra... Com medo de a voz não sair."

O nome do espetáculo que ela leva a São Paulo e, na sequência, apresenta em Lisboa e Nova York, é "Bibi, Histórias e Canções". No repertório, um pot-pourri dos seus mais de 70 anos de carreira. Óperas, fados, sambas de Chico Buarque, Noel Rosa. Conta que conheceu o compositor da Vila Isabel durante a gravação de um filme de Carmen Santos, "Cidade Mulher". "Filme, aliás, que se perdeu. Não se encontra uma cópia. Noel aparecia, ensinando a gente a cantar. Era muito simpático. Embora não fosse de sorrisos", ela ressalva. "Entrava sério, todo de branco. Sabia lidar com as pessoas. Falava assim: ''Está muito baixo esse tom, não está, Bibi?'' Era paciente. Muito paciente."

Em uma das paredes, há um retrato, um desenho de Procópio Ferreira feito a grafite. Fica em um canto da sala, discreto. Mas sua figura é evocada um sem-número de vezes na conversa da filha. A atriz chegou a dirigi-lo em cena. "Fizemos Divórcio (1947). Foi um sucesso estrondoso. E papai estava em um papel dramático, faceta que as pessoas não conheciam." A peça marcou sua estreia como encenadora, logo depois da temporada em Londres, onde estudou direção na Royal Academy of Dramatics Arts.

Anos antes, foi Procópio quem a conduziu em sua estreia. Não só naquela breve participação, quando tinha menos de um mês de vida e substituiu uma boneca que desapareceu na hora do espetáculo. Mas também no seu primeiro personagem como profissional, em 1941, na comédia "La Locandiera". O pendor para carreira de atriz, portanto, está mais do que explicado. Mas a porção cantora também encontra raízes familiares. "Meu bisavô conheceu minha bisavó no Teatro Solis, de Montevidéu. Cantavam no coro. Ele poderia ter viajado, sido solista. Mas preferiu ficar e se casar. Tiveram sete filhos. Um deles era a minha adorada avó, com quem vivi até os 12, 13 anos. Engraçado, tudo para mim aconteceu nessa idade. Quando eu tinha 12, 13 anos."

A rotina para os próximos meses tem ares de maratona: São Paulo, Lisboa, Nova York. Canta no Lincoln Center, em 21 de novembro. Depois, Bibi grava um disco com canções de Natal. Faz concerto em Petrópolis no fim do ano. Retorna a São Paulo em 2013 para dirigir uma peça de Juca de Oliveira. Mas sem perder de vista o projeto de um novo espetáculo com canções de Edith Piaf. Com datas já previstas em Paris. "Cada um sente a idade de um jeito. Muitas pessoas, com 90 anos, não sentem o que eu sinto. A saúde é muito boa. Sempre levei uma vida meio besta, sabe? Sem beber, sem fumar. Não que eu seja contra. Tem quem faça isso muito bem. É que para mim, simplesmente, não calhou." Calharam outras coisas. E, a julgar pelos planos de Bibi, ainda calharão umas tantas mais. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

BIBI, HISTÓRIAS E CANÇÕES

Teatro Shopping Frei Caneca (Rua Frei Caneca, 569). Tel. (011) 3472-2229. 6ª e sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 120. De 10/8 a 30/9.

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