Bia Lessa leva peça de Ibsen à tela e ao palco

No final de Casa de Boneca, marco do teatro realista, Nora abdica de continuar a brincar de esposa e mãe para enfrentar o mundo. Em outras palavras, Nora sai da ficção para a vida. E para a diretora Bia Lessa, a melhor forma de representar a transformação da personagem foi justamente reproduzir esta ruptura através de duas linguagens: o cinema e o teatro. Tirar a personagem de uma ficção - o cinema, e colocá-la na realidade, o palco.Explica-se: na montagem de Casa de Boneca que estreou no Teatro do CCBB do Rio na semana passada, o célebre texto do autor norueguês Henrik Ibsen (1828/1906) será exibido em tela armada no palco. Depois de 1h48 de filme, apenas a atriz Betty Gofman, intérprete de Nora, deixará a tela, "um mundo de fantasia" para enfrentar, como a personagem a realidade, no caso, o público. A divulgação do espetáculo tem enfatizado que se trata de "um filme-peça" dirigido por Bia Lessa. A cautela procede. Afinal, o elenco formado por Júlia Lemmertz, José Mayer, José Wilker, Cassio Gabus Mendes, e mais a participação especial de Arnaldo Antunes, não está longe de um dream-team das bilheterias. Antes que acusem a diretora de condenar o teatro à morte ao optar pelo cinema no palco, ela afirma, categórica: "O teatro está absolutamente vivo a partir do momento que não se confine a barreiras que efetivamente não tem. O teatro está vivo sim, e por isso, pode tudo. Há o teatro de rua, teatro de bonecos, teatro de sombras, teatro performático, o teatro de José Celso, Peter Greenaway, Bob Wilson, entre tantas outras experiências."Apesar da proposta no mínimo inusitada, Bia Lessa assegura que não se sente realizando "nenhuma grande ruptura": "A peça do Ibsen está lá, sou totalmente fiel ao texto e ao espírito da trama. Nora vive, de fato, em uma casa de bonecas, e achei que a melhor forma de representar essa condição e também a sua decisão final foi através da representação no cinema e no palco."Carreira - Quem acompanha a trajetória de Bia Lessa desde os anos 80 sabe que a delimitação de códigos, espaços, linguagens e convenções não integram o vasto vocabulário desta criadora que começou no teatro, com um currículo de elogiadas montagens, como Orlando (Virginia Woolf), O Homem Sem Qualidades (Roberto Musil), Cartas Portuguesas (atribuídas a Mariana Alcoforado) , e a última, As Três Irmãs, de Tchecov, há quase quatro anos. Paralelamente, expandiu seu talento para direção de óperas (Suor Angélica, de Puccini, Don Giovanni, de Mozart) filmes (Crede-Mi, inspirado em Thomas Mann), vídeos (um está a caminho sobre a mulher brasileira) e montagem de elogiadíssimas exposições, como a mostra Barroca no Brasil + 500 ou o pavilhão do Brasil na Expo 2000 em Hannover, entre outros eventos.A doçura do trato e aparência franzina (mede apenas 1m49 e tem corpo de menina) revestem uma workaholic furiosa que simplesmente não suporta abrir mão da liberdade de criar. Apesar da provocação do momento - filme-peça - Bia Lessa garante que não quer polêmica: "Quando monto exposições dizem que estou fazendo dramaturgia, quando faço filmes dizem que é encenação teatral - e para mim a mistura de fronteiras é absolutamente natural e legítima. Eu não soube fazer Casa de Boneca de outra forma (aliás, uma montagem mais "realista" está em cartaz com direção de Aderbal Jr. e Ana Paula Arósio no papel principal.)"O filme-peça surgiu quando Bia Lessa foi convidada pela produtora Monique Gardenberg a dirigir Casa de Boneca, então apenas um projeto. Ao ser viabilizado, a irrequieta diretora que ainda não se havia aprofundado no texto de Ibsen, se viu diante de um impasse, resumido com simplicidade: "Eu não sabia o que fazer. O que realmente me interessava na trama era a arquitetura teatral e a densidade dos personagens." Já a trama em si, a história da mulher que se libertava do marido, não estava no centro de seus interesses, admite. Faz sentido. Para Bia Lessa, o teatro tem sido, por excelência, "o espaço da metáfora, do risco, da aventura". E admite que não conseguiu "transformar em metáfora" texto tão marcadamente realista. Por outro lado, sempre considerou a tela do cinema um espaço privilegiado para o exercício do concreto, do real. E percebeu que o drama de Nora, na confluência de dois mundos, pedia essa dupla linguagem.Ao optar pelas duas linguagens, em nenhum momento passou pela sua cabeça misturar cinema e teatro como Al Pacino fez em Ricardo III ou Louis Malle em Tio Vânia em Nova York, ou enveredar por exercícios de metalinguagem de A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen por exemplo. Nada disso.Irreverência - Fora a inesperada presença de Arnaldo Antunes cantando a irreverente e divertida Essa Mulher, de seu último CD, Paradeiro, em um cenário ainda em preparação, a história de Nora é contada de forma realista, com evidente reverência à essência do texto, reverência que se estende ao cenário, figurinos (todos feitos em papel), interpretações. "Não quis fazer uma peça filmada. Procurei trabalhar a personalidade dos atores e a adesão de todo o elenco foi tão extraordinária que cada um coloca a sua assinatura nos créditos. Quis fugir de efeitos, artifícios", resume Bia.A principal intérprete, Betty Gofman, está acostumada às inovações da diretora - interpretou Orlando (na segunda fase), Viagem ao Centro da Terra, O Homem Sem Qualidades, As Três Irmãs. "Confio cegamente na Bia. Ela ousa, arrisca com muita inteligência e bom-gosto. Devo muito a ela, no teatro e na vida", derrama-se. E acha totalmente natural que a personagem saia da tela para o palco: "O que importa é a emoção e a verdade da personagem."O filme Casa de Boneca teve orçamento de peça - R$ 370 mil, as imagens foram captadas em sistema digital ao longo de 16 dias e jornadas de 12 horas de trabalho em uma casa no bairro carioca de Santa Tereza. Gustavo Hadba e Paulo Jacinto dos Reis dividem a direção de fotografia, Cláudio Amaral Peixoto assina a direção de arte e Otto a música.De imediato, o resultado desta invasão recíproca entre cinema e teatro também será híbrido. Em alguns meses, Casa de Boneca chegará aos cinemas, abrindo provavelmente a discussão de teatro filmado. Antes, porém, no dia 13 de maio, Bia Lessa aprontará mais uma aproximação inusitada, ao reunir no palco Maria Bethânia e a atriz alemã Hanna Schygulla na entrega do primeiro prêmio Abit Fashion Brasil em São Paulo. E para quem não consegue ver semelhanças entre a musa baiana do tropicalismo e a atriz fetiche de Fassbinder, Bia Lessa assegura: "Elas têm tudo a ver uma com a outra." Alguém duvida?

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