Betty Mindlin reconta mitos tribais

Graças aos índios, o Brasil tem 195 línguas - mas só fala uma. Por causa do fascínio da antropóloga Betty Mindlin, que há 23 anos ronda e decifra os gaviões-icolens de Rondônia, os brasileiros vão conhecer seu universo mágico oculto. Vão descobrir que iam buscar longe demais as respostas para os mistérios, quando nossos índios aqui ao lado já haviam resolvido tudo.Por exemplo, alguém já pensou em vestir o couro dos espíritos para entrar noutra? Ou trilhar o caminho que liga o céu e a terra para alçar a felicidade? E, antes de saber que o ócio é criativo, caçar a alegria lá dentro, nunca fora ou contabilizada em bens materiais? Esse mundo lírico é o presente de Betty Mindlin em Couro dos Espíritos (Senac/Terceiro Nome). O lançamento é hoje, às 18 horas, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.Na década de 50, estavam reduzidos a cem pessoas, mas hoje existem 408 índios da tribo gavião-icolen falando uma língua do tronco tupi e da família mondé. A tradução de sua fala resultou um livro que reconta a origem e o fim do mundo, a essência da alma e dos espíritos, a existência de monstros e fantasmas. O mais encantador é o folhetim do ponto de vista dos indígenas, que têm um relato próprio para o incesto, a sexualidade, o amor. Eles adoram namorar. E cultivar o erótico, como o banho ritual ao fim da primeira menstruação da futura mulher, dado justamente pelo eleito, a quem caberá pintar seu corpo com símbolos da floresta e de animais. Os índios conseguem, por exemplo, deixar seu corpo na rede enquanto a alma vai para a casa dos espíritos - os céus, onde a felicidade existe. O relato do pajé Korõi contraria as regras econômicas do mundo globalizado: "Continuo caçando sozinho minha alegria, indo dançar nos céus (enquanto o corpo fica na rede), levando quando posso meus companheiros... Voltamos exauridos de tanto dançar e comer." Ele sabe: "É difícil fazer festas, ninguém tem tempo para nos seguir, ocupados em ir para a cidade ou produzir para ter algum dinheiro." A aposta é na vida das almas, que não é nada triste ou imaterial, mas sensual, feita de prazer e de abraços. "Aliás, a nossa verdadeira alma, das três que temos, é andarilha. O arco-íris é a ponte entre o céu e a terra e a natureza, não a destrua - matas, plantas, florestas estão povoadas de espíritos. Os índios vão e voltam ao país dos mortos." Três pajés contribuíram para esse livro, com histórias que refazem os mitos desde que a tribo existe. São Txipiküb-ob, Itxiköibir Joaquim e Korõi. Mas como o mundo dos indígenas é repassado de geração em geração pela história oral, eles se referem a mais dois pajés desaparecidos, Alamãa, que fugiu para a floresta em 1992, e Txiposegov, morto em 1997. O principal narrador é Digüt Tasorabá Francisco (Chiquinho) um dos mais velhos de seu povo.As fábulas contam como é perigoso para o viajante se deixar atrair por uma mulher, que não é a sua, e na verdade é uma jibóia. O mesmo ocorre com a mulher que se deixa seduzir por um homem misterioso na beira do rio. Ele é de fato o boto e, se ela ceder, vai para o fundo do rio com ele, não volta mais.O pajé vira onça. O espírito das águas, goiahnei, pode virar bebê na barriga de uma moça virgem se ela mexer com o ovo do pássaro dos espíritos. Há guerras, feitiçaria, rituais de morte e a cura dos espíritos. Um glossário ensina que amboy quer dizer amigo, garpi é o céu, uatãri, árvore e on-di, alma.A iniciativa desse livro foi dos gaviões-icolens. Suas músicas, a antropóloga já havia gravado há sete anos com Marlui Miranda. E a dança dos gaviões, Ivaldo Bertazzo trouxe para os palcos paulistas em 1997 e 1999.Por Couro dos Espíritos os gavião-icolens receberam direitos autorais. Não foi a primeira experiência de Betty Mindlin. Ela tem quatro livros com narradores indígenas, registrados em oito línguas: Taparis e Tarupás, Vozes da Origem, Moqueca de Maridos e Terra Grávida. Com Couro dos Espíritos, a antropóloga inicia noutra editora, Cosac & Naif, uma série de mitos universais que começam com O Primeiro Homem e Outos Mitos dos Índios Brasileiros. Com belíssimas ilustrações de Luana Geiger as fábulas - agora dirigida para crianças - contam o começo da humanidade e a fera que nasceu junto, a descida à terra e a casa dos espíritos. Além da reinterpretação da vida, a certeza dada a adultos e crianças de que existem outras formas de pensar e viver -- e que é possível trocar a pele de gente pelo couro dos espíritos. Couro dos Espíritos. De Betty Mindlin. Editora Senac e Terceiro Nome. 255 páginas. R$ 30,00. Hoje, das 18 às 21 horas. Livraria Cultura. Avenida Paulista, 2.073, tel. 3285-4033

Agencia Estado,

21 de agosto de 2001 | 10h19

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