Betty Faria rompe com a Globo e ataca no cinema

No dia 31 de dezembro, Betty Faria terminou um relacionamento de 36 anos. A atriz, famosa por seus papéis em novelas de televisão e filmes brasileiros, encerrou seu contrato com a Rede Globo e pretende não renová-lo tão cedo. Contratada da emissora há mais de três décadas, nos últimos dois anos estava sem trabalho. Segundo ela mesma, sua única participação recente foi em um episódio do seriado A Grande Família, do núcleo comandado pelo diretor Guel Arraes. "Abri os braços para a televisão", desabafou, em entrevista exclusiva para o Estado. "Não posso deixar que me matem; considero isso um assassinato."Betty, que tem 60 anos, está longe das novelas desde 1999, quando atuou em Suave Veneno, de Aguinaldo Silva, no papel de Carlota. Desde então, não foi mais aproveitada. Apresentou à direção da Globo dois projetos de programas de auditório, um sonho antigo da atriz. Mas, em ambas as ocasiões, as propostas foram recusadas. Na última, segundo ela, falou diretamente com Marluce Dias da Silva, principal executiva da emissora. Ouviu que não havia verba para investir em novos programas do gênero e que também não teria espaço na grade de programação para algo parecido."Essa conversa eu conheço", fala a atriz, com o sotaque carregado de quem nasceu e viveu em Copacabana. "O fato é que não tem personagem para mim e eu sei que poderia ser aproveitada de outra maneira. Tem hora que não dá mais. Estou cheia de vida, de projetos e quero fazer muitas outras coisas." Agora que o contrato que a prendia à Globo terminou, está disposta a ouvir outras emissoras. E não descarta propostas para trabalhar nos bastidores, nem para mudar de Estado. "Eu daria uma ótima supervisora artística."Não é a primeira vez que Betty se afasta do Jardim Botânico. Entre 1994 e 1995, ela passou um breve período fora de contrato. Era a atriz principal de A Idade da Loba, novela dirigida por Jayme Monjardim. Era uma co-produção Brasil-Portugal que foi veiculada em várias emissoras dos dois países - em São Paulo, foi exibida pela Rede Bandeirantes. "Tive um pequeno desentendimento com a direção", relembrou. "Mas logo depois me chamaram de volta."Entre seus planos, está a dedicação de mais tempo ao cinema, um de seus veículos preferidos. Trata-se, na verdade, de uma prioridade. Betty foi a cantora Leniza Meyer em Dona Flor e Seus Dois Maridos (1977); a bela Salomé em Bye Bye Brazil (1979); a espevitada Fausta em Romance da Empregada (1987) e a misteriosa Odete Vargas em Perfume de Gardênia (1993). O último trabalho foi uma participação na comédia For All - O Trampolim da Vitória (1998).Agora ela está trabalhando na realização de Bens Confiscados, roteiro elaborado por Carlos Reichenbach e Daniel Chaia a partir de um argumento do diretor paulista. Bens Confiscados vai contar a história de Serena, enfermeira-chefe de um grande hospital carioca, envolvida numa história de amor com um político corrupto acusado de assassinar a própria mulher. Reichenbach criou a personagem especialmente para a atriz, que vê nela uma figura "sozinha e apaixonada, que tem um lado Cinderela muito forte, sempre na esperança de que o homem pelo qual está apaixonada abandone tudo para ficar com ela".Mais uma vez, ele se inspirou no diretor italiano Valério Zurlini. "Tem muito a ver com Dois Destinos, que trata da questão ética a partir de um viés sentimental e romântico", diz. Um dos sonhos de Reichenbach para o filme é ter o ator e produtor Jacques Perin no elenco. O francês produziu Deserto dos Tártaros (1976), último filme dirigido por Zurlini. "Estamos indo a Paris para lançar Dois Córregos", revela ele. "E vamos com o roteiro traduzido para apresentar a proposta a ele." O filme será produzido por Betty e a gaúcha Sara Silveira, uma parceria que vem sendo acalentada há algum tempo pelas duas amigas. Segundo a produtora executiva Maria Ionescu, o projeto está orçado inicialmente em R$ 2,7 milhões.Não é a primeira vez que Betty trabalha sob a batuta de Reichenbach. A atriz atuou em Anjos do Arrabalde (1986) no papel da assistente social Dália. O filme, que marcou uma nova fase na carreira recente do cineasta, ganhou o Festival de Gramado de 1986 e deu à atriz o prêmio de melhor interpretação. "Na época, eu não pude comparecer", relembra ela. "Ia começar a rodar Romance da Empregada, com o Bruno Barreto, e não podia sair do Rio. Lembro que me ligaram de madrugada para avisar. Foi um momento muito bom da minha carreira."O novo projeto traz também uma novidade na carreira da atriz. Será a primeira vez que ela atuará como produtora. Não é exatamente uma experiência inédita, já que produziu peças de teatro ao longo de sua carreira. Mas será algo novo no seu currículo cinematográfico. "Estou engatinhando nesse terreno", admite. "Mas tenho muitas idéias, como por exemplo produzir um documentário sobre Itamaracá, que é o meu paraíso terrestre. E fazer a adaptação de um texto literário clássico muito famoso, sobre o qual não detemos os direitos, mas que seria perfeito para ter como cenário o Rio de Janeiro."O teatro, por enquanto, vai ficar em compasso de espera. Embora esteja estudando o convite para participar de uma montagem de uma peça de Eric Nielsen, não pretende investir muito nos palcos. "Quero canalizar minhas energias para outras coisas, para meus projetos de televisão e cinema", aponta. "O teatro absorve muito da gente, não dá para fazer mais nada." O último trabalho em teatro foi a montagem da peça The Fine Act, com textos de David Mamet, Woody Allen e outros autores. O ano de 2001 foi muito difícil para Betty. Alguns problemas pessoais, como a morte do pai, causaram-lhe muita dor. Adepta do budismo, diz viver sob uma filosofia de causa e efeito. Portanto, procura viver sempre em paz e tentando melhorar a cada dia. Tem consciência de que não vai mais ser, em suas próprias palavras, "uma Marília Pêra ou uma Fernanda Montenegro". Para ela, as duas colegas são "grandes damas do teatro". "Eu quero fazer aquilo que me deixa à vontade. Quero interpretar personagens de cinema e televisão que possam abrir um novo leque de possibilidades neste momento de minha vida."

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