Beth Jobim lança olhar poético sobre a paisagem

A primeira exposição dos desenhos de Elizabeth Jobim em São Paulo, a partir de hoje no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, tem um tema que a artista persegue de maneira obsessiva, as pedras, mas com o diferencial de agora tratá-las como figuras humanas. Os blocos se agrupam como uma família que se prepara para ser fotografada, alguns em pé, outros agachados, uns mais formais, outros desleixados, esparramados pelo chão.Essa impressão que os trabalhos causam no espectador pode não ser intencional, mas também não é gratuita. Afinal, em seus desenhos de observação, as pedras "posam" para ela. Em seu ateliê, no bairro de São Cristovão, Beth Jobim dispõe várias delas sobre a mesa, para passar dias a observá-las, de vários ângulos, em infinitas configurações. Até que adquirem, na passagem para o papel, alguma coisa da corporeidade dos humanos.Os modelos de sua obra ela recolhe em um antigo sítio da família, em Poço Fundo, região de Teresópolis. Ao contrário do que os desenhos fazem crer, são pedrinhas, mas que ganham monumentalidade em meio à paisagem desértica da artista.Outro dado revelador dessa safra recente é que Beth Jobim não permite que as formas geometrizantes ? próprias das pedras angulosas ? se imponham para organizar os trabalhos. Ela traz à tona o lado mais íntimo desses objetos (o crítico Paulo Venancio Filho acredita que elas parecem ser desenhadas de dentro para fora), a partir de uma observação atenta das variações de luz, de mudanças de perspectiva e de enquadramento. Como se a artista estivesse desenhando o rosto de uma pessoa. Os cubos, trapézios e losangos surgem naturalmente, aqui e ali, mas se mostram de maneira elegante, quase tímida, receosos de desviar a atenção do espectador do que verdadeiramente interessa, a verdade por trás das formas. Essa busca pelo âmago das coisas ajuda a explicar a simplicidade e o gesto contido que são a marca desses desenhos. Não há sombras ou claro-escuro, não há cor, apenas a persistência de uma linha (nanquim, carvão ou acrílico), revelando os contornos das pedras. O traço surge por meio de um gesto contínuo, que começa definindo um horizonte na paisagem, faz uma pausa para construir os aglomerados de pedras e depois prossegue ? lento, mas determinado ? seu caminho. Rumo ao próximo desenho, como se os 90 trabalhos em exposição tivessem sido feitos de uma tacada, por uma linha que nunca é ininterrompida, em sua busca incansável para dar sentido às coisas do mundo."Tudo isso pode ser visto como um mesmo desenho, que se apresenta cada vez de um jeito diferente. O meu trabalho fala desse momento de olhar alguma coisa, para depois reconstruí-la com seu próprio repertório", diz Beth. "O desenho nos faz mais conscientes. Quando você depara com um objeto, passa a ver através dele também." Nesse sinuoso percurso em busca da sinceridade, o que seria apenas representado passa a existir, como no retrato de alguém. Quem se lembra da estonteante cena inicial de Aguirre ? A Cólera dos Deuses (1972), uma das obras-primas do cineasta alemão Werner Herzog, sabe que olhar para uma paisagem como se olha para uma pessoa não é novidade no cinema. Herzog filma uma montanha enevoada como se estivesse diante de um grande rosto de pedra. Na literatura, muito antes, Joseph Conrad (1857-1924), em O Coração das Trevas, de 1899, já tratava a natureza como um ser vivo, com o qual o homem troca energias.Outra relação da obra de Beth Jobim com o olhar cinematográfico pode ser vista nos enquadramentos da artista, que às vezes seleciona pequenos recortes com três ou quatro pedras, um close, para em seguida afastar a câmera, em visão panorâmica, revelando a grandeza horizontal de suas insólitas planícies e entregando suas pedras à solidão da paisagem. Esboços ? A longa série de desenhos em exposição pode ser vista também como um diário plástico de variações sobre o mesmo tema. Ainda uma maneira de buscar a verdade dos objetos por meio de seus vários fragmentos, que se mostram sempre de forma diferente ? um procedimento cubista. Paul Cézanne pintou obsessivamente um mesmo tema da natureza, A Montanha Saint-Victoire, que depois serviu de inspiração para Picasso. O pintor espanhol via o monte como uma justaposição de várias chapas de cor, planos sincrônicos que registravam as mudanças da luz durante o dia. Também nos desenhos de Beth, os diferentes planos da mesma pedra se esforçam para ganhar a superfície do papel, mostrando-se simultaneamente ao espectador. A artista, que começou expondo pinturas, explica que no passado os desenhos eram apenas esboços. "Só que eles foram ganhando vida própria e hoje têm status de trabalho mesmo", diz.Além da galeria de Raquel Arnaud, Beth Jobim inaugura outra individual na cidade, no Centro Universitário Maria Antônia (Ceuma), depois de amanhã. As pedras comparecem novamente, mas de maneira completamente diversa. No lugar da intimidade dos desenhos da galeria (os maiores tem 22 cm x 33 cm), a grandeza de pinturas em dezenas de folhas retangulares (100 cm x 70 cm), montadas lado a lado na parede até ocupar uma sala inteira do museu. No lugar do traço delicado do nanquim, a eloqüência da tinta acrílica azul-ultramar, escorrendo em grossas linhas. Elizabeth Jobim. De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 11 às 14 horas. Gabinete de Arte Raquel Arnaud. Rua Artur de Azevedo, 401, tel. 3083-6322. Até 22/12. Abertura hoje, às 19 horas. De segunda a sexta, das 12 às 21 horas; sábado, domingo e feriado, das 9 às 21 horas. Centro Universitário Maria Antonia. Rua Maria Antonia, 294, tel. 3255-5538. Até 22/1. Abertura quinta, às 20 horas.

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