Beth Carvalho volta para festejar

No primeiro CD de inéditas em 15 anos, cantora assume revival de 1978

LAURO LISBOA GARCIA, RIO, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2011 | 03h08

É a própria Beth Carvalho quem usa a expressão revival ao falar do novo álbum, Nosso Samba Está na Rua (EMI), o primeiro de canções inéditas desde Brasileira da Gema, de 15 anos atrás. Tanto na capa (reunindo todos os compositores e instrumentistas que estão no CD), como no conteúdo - trazendo muitos dos mesmos músicos, incluindo o produtor Rildo Hora, e equilibrando a ala jovem com a velha guarda do samba -, tudo remete a seu antológico LP De Pé no Chão (1978) e também reverbera sons e imagens de Na Fonte (1981).

"De Pé no Chão foi um divisor de águas da minha carreira e do samba também, porque foi quando surgiu o novo som de samba, com repique, tantan e banjo. Fiquei bem mais popular depois daquele disco", lembra. "Quis trazer toda essa turma de volta."

Além de Rildo, os três discos têm Arlindo Cruz na capa e sambas de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Raridade da dupla, Palavras Malditas - que Carlinhos Vergueiro também incluiu no tributo Nelson Para Sempre - "é praticamente inédito", só tinha sido gravado num disco de 78RPM por Ari Cordovil, em 1957.

Há outras ligações curiosas: sua filha Luana Carvalho era um bebê quando Beth dedicou Na Fonte a ela. Agora, aos 30 anos, comparece como compositora de Arrasta a Sandália (parceria com Dayse do Banjo), em que a mãe divide os vocais com Zeca Pagodinho, autor de Guaracy (parceria com Arlindo Cruz e Sombrinha). O novo CD é dedicado a Dona Ivone Lara, que também tinha música em Na Fonte e de quem Beth gravou agora Em Cada Canto Uma Esperança (mais uma da fértil parceria com Délcio Carvalho).

Pique carnavalesco. Em De Pé no Chão Beth gravou Jorge Aragão, Noeci Dias e Dida (do hit Vou Festejar), Monarco, Paulo da Portela, Cartola, Nelson Sargento, Candeia e Martinho da Vila, Wilson Moreira e Nei Lopes e os já citados. De certa forma, ela acredita que os compositores presentes no CD de 2011 - em que traz sambas novos de velhos conhecidos e revela o jovem Edinho do Samba (autor de Tô Feliz Demais) - correspondem ao talento daqueles craques.

"É um outro momento. São mais jovens, a linguagem é diferente, é um jeito mais descolado de falar. Leandro Fregonesi, Ciraninho e Rafael dos Santos são meninos mesmo e já são vencedores de quatro sambas-enredo da Portela", exemplifica. "Acho que eles têm influência direta do samba de carnaval do Cacique de Ramos." Essa influência da tradição é realçada não só na forma de compor, mas na sonoridade que Beth buscou: "Fiz questão de reforçar isso nos arranjos, bem percussivos. O disco tem um pique carnavalesco forte, que é uma coisa que não estão mais fazendo."

Superando sérios problemas de saúde, depois de passar por várias cirurgias na coluna vertebral, Beth diz que veio com esse trabalho festivo para "celebrar a vida". Se o significado da capa é o de uma "passeata", como diz Beth, há em todo o disco um ar de manifesto, "ao samba, à vida, ao amor, à alegria, ao feminismo".

Em todos os discos Beth diz que procura tratar de vários temas, como esses citados acima, além do carnaval, da Mangueira e da negritude -, a Mangueira, ou seja: "As minhas paixões". Ela também costuma formar um júri popular com pessoas "de várias classes sociais" para avaliar e selecionar o repertório final. Para esse CD gravou 25 e escolheu 15 diante das mais de 3 mil composições que ouviu. A mais votada foi Minha História (Lucio Dalla/Paola Pallottino/Chico Buarque), que encerra o CD. "Não sou rígida, mas procuro seguir ao máximo o resultado que der."

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