Guillaume Horcajuelo/Efe
Guillaume Horcajuelo/Efe

Bertolucci anuncia retorno, com 3-D

Bernardo Bertolucci chegou em cadeira de rodas. Foi apresentado, como se fosse necessário, pelo próprio delegado geral do Festival de Cannes, Thierry Frémaux. Ele citou Quentin Tarantino. "Quentin diz que existe uma bela lista, a dos diretores que tiveram a honra de receber a Palma de Ouro. Mas há outra lista, mais bela ainda, dos que nunca receberam o prêmio." Bertolucci nunca recebeu a Palma. Agora, por iniciativa do próprio festival - leia-se Frémaux e o presidente Gilles Jacob -, ele recebe um a Palma especial.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2011 | 00h00

Em 1995, no centenário do cinema, Cannes havia outorgado a primeira Palma de Ouro especial a Ingmar Bergman. A partir de agora, e de Bertolucci, todo ano o troféu será concedido. Bertolucci foi elegante. "Não estou ganhando minha Palma por um filme, mas pelo conjunto da obra. É como se Cannes estivesse tirando uma cena de cada um de meus filmes para compor um único filme, e ele me vale o prêmio."

Henri Béhar, que os jornalistas brasileiros aqui na Croisette chamam de "Hebe Camargo de Cannes", lembrou que a versão restaurada de O Conformista, um dos clássicos de Bertolucci, será projetada em Cannes. O grande diretor soltou essa pérola: "Minha obra está sendo restaurada. Eu, às vezes, gostaria que alguma cinemateca me restaurasse, não os filmes." Mesmo confinado numa cadeira de rodas, a cabeça está a mil. É preciso explicar a situação. Bertolucci sofria de um problema de coluna. Fez uma cirurgia desastrosa e ficou paralítico.

Isso não o impede de sonhar com o próximo filme. "Há cinco ou seis anos achei que estava acabado, mas agora vou voltar." Entusiasmado com Avatar, de James Cameron, ele quer mostrar que o formato 3-D não se adapta só aos épicos nem aos grandes espetáculos. O próximo Bertolucci será Io e Te, Eu e Tu. Um homem e uma mulher. Dois personagens, um só cenário e o 3-D. Ele lembrou a primeira vez que veio a Cannes, em 1964, na Semana da Crítica. Prima della Rivoluzione, Antes da Revolução, havia sido demolido pela crítica italiana. Foi a partir de Cannes que começou o culto ao filme. Já que Allen veio mostrar Meia Noite em Paris, todo mundo queria que Bertolucci comentasse Último Tango em Paris.

"Estava muito influenciado pela leitura de Georges Bataille quando fiz Último Tango. Devo muito a Marlon Brando. Ele me deu, frente às câmeras, muito mais do que achava que estava dando. Quando descobriu isso, nunca mais falou comigo." Bertolucci sabe que fez história com aquele filme. Ele lembra o japonês Nagisa Oshima, que também mostrou Império dos Sentidos em Cannes. "Quisemos ir mais longe do que o cinema já havia ido na abordagem do sexo. O sucesso do filme superou toda expectativa. É muito difícil manter a cabeça quando se é jovem e se conhece tal sucesso."

E sua relação com o Cinema Novo? "Fui muito amigo de Glauber Rocha. Ele dizia que nossos filmes eram tão compactos, tão difíceis, que se assemelham a miúras. São touros de temperamento. Fechados, nem um mosquito consegue entrar pelo seu orifício anal. Assim também o público fugia de nossas obras." A piada fez rir toda a sala. Na verdade, não era de Glauber. Quem primeiro disse isso foi David Neves. Glauber incorporou o dito e o fez seu.

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