Bertazzo leva ao palco a diversidade brasileira

A cidadania começa no corpo. Convencido da veracidade desse mote, o diretor e coreógrafo Ivaldo Bertazzo estendeu o conceito também para a dança, criando uma série de produções em que busca a compreensão sobre a plasticidade e a diversidade das ações desse corpo. Desenvolveu uma série de trabalhos envolventes e o mais recente, Mãe Gentil, estréia nessa quarta-feira, em uma nova instalação do Sesc Belenzinho, para convidados - o público será recebido a partir de sexta-feira. "Trata-se de uma experiência única, pois o encontro com os garotos me fez conhecer uma nova forma de aprendizado do movimento", reconhece o coreógrafo, que já desenvolvera outras experiências nos espetáculos Ciranda dos Homens, Carnaval dos Animais (1998) e Além da Linha d´Água (1999).Os garotos são os 46 dançarinos do Centro Alternativo de Artes e Cidadania, uma ONG do Belenzinho, que repetem os movimentos criados por Bertazzo. São adolescentes e adultos, de diferentes idades e feições físicas, cada um descobrindo a importância do seu centro biológico. Uma relação entre o externo (como um corpo se relaciona com o outro) e o interno (como um corpo se organiza em si). "A descoberta também aconteceu para essa meninada, que se apropriou mais da cidade, participando ativamente de atividades tão simples como andar de ônibus", conta o diretor. "Eles mostraram ter mais valores para preservar, como se fosse uma defesa à violência cotidiana."Bertazzo é um artista multifacetado e sua obra reflete a busca de elementos culturais que legitimam a identidade do povo brasileiro: a dança, a música, as artes plásticas, a moda, o vídeo, o corpo como ferramenta construtora do País. Em Mãe Gentil, ele mergulha fundo na diversidade brasileira e leva ao palco referências que dificilmente se encontrariam. Assim, durante o espetáculo, dividem o mesmo espaço atores consagrados como Rosi Campos e Sandra Pêra, o músico maranhense Zeca Baleiro o artista plástico Nélson Leirner e o estilista Fábio Namatame. "Em pouco tempo, nasceu uma relação muito próxima entre as pessoas, cada uma ensinando um pouco para a outra", observa Rosi, que interpreta o papel principal. "É uma grande oportunidade para as pessoas repensarem sobre raças e cores de pele."Bertazzo dividiu o espetáculo em três blocos, embora sem separação formal: o primeiro sobre o ufanismo, em seguida a questão da preguiça e o último sobre o racismo. Cinco personagens conduzem a trama, todos representativos de extratos urbanos, como a dona de casa (interpretada por Juçara Morais), a emergente (Sandra Pêra), o funcionário público (Leandro Rezende) o executivo (Tadeu di Pietro) e o motoboy (Moisés Inácio).Miscigenação - Todos representam o núcleo urbano da sociedade brasileira e discutem as controvertidas idéias de intelectuais, que são apresentadas em vídeo por convidados especiais - Arnaldo Antunes como Monteiro Lobato, José Miguel Wisnik como Sérgio Buarque de Holanda, Sérgio Mamberti como Euclides da Cunha e Dráuzio Varella como um médico. "É uma discussão sobre a construção do jeitinho brasileiro por meio de idéias, algumas até radicais, como uma frase do Euclides, que achava que a miscigenação era um grande erro; acho isso uma coisa um tanto nazista."Complementando a dramaturgia (criada por Carmute Campello, Lúcia Campello e Paulo Rogério), Bertazzo costurou os contrastes com a música de Zeca Baleiro que, acompanhado da banda Mandabala, destaca-se como uma das melhores novidades musicais dos últimos anos. "Ele é um roqueiro urbano que vem do Maranhão, onde é o rei da embolada", comenta o diretor. Como menestrel, Baleiro exerce uma função essencial em Mãe Gentil promovendo a fusão de estilos e tribos, além de resgatar a canção popular.O músico compôs canções inéditas para o espetáculo, entre elas uma adaptação do poema Nega Fulô, de Jorge de Lima. Canta ainda ao lado de Rosa Reis e Dona Teté, cantoras maranhenses que se apresentam pela primeira vez em São Paulo. Também subirá ao palco a banda mirim Dragões do Forró, da Fundação Casa Grande, de Nova Olinda, no Ceará.Sempre disposto a promover uma profusão de referências e estilos, Bertazzo decidiu radicalizar nos figurinos, convidando o estilista Alexandre Herchcovitch. Animado, ele se dispôs a criar modelos exclusivos, mas o excesso de compromissos o impediu de cumprir o prazo. O diretor convidou então Fábio Namatame, responsável por um figurino colorido e alegre. Brilha ainda o design de luz de Paulo Pederneiras, do Grupo Corpo, de Belo Horizonte.Com todos os seus trabalhos, Bertazzo foi solidificando um conhecimento sobre o funcionamento do corpo humano ao mesmo tempo em que testava, em ritmos próprios (seus espetáculos), uma compreensão sobre a plasticidade e a diversidade das ações desse corpo. Foi assim, nestes 24 anos de trabalho, que se descobriu coreógrafo e a importância do que chama de "corpo-cidadão". "Busco a compreensão de como o corpo se estrutura no espaço."

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