Berta Zemel volta aos palcos com "Anjo Duro"

Anjo Duro volta para o segundo tempo. O monólogo em que a atriz Berta Zemel revive momentos significativos da vida da psiquiatra Nise da Silveira, morta em outubro, passa a ocupar a sala Arte, do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), com 118 lugares, de amanhã a 24 de setembro. "No fim da temporada na sala Paschoal (Carlos Magno), do Teatro Sérgio Cardoso, havia gente voltando para casa, porque não havia mais ingressos", explica Berta, uma das indicadas para o Prêmio Shell de Melhor Atriz deste ano.A peça, que estreou em março, no Festival de Teatro de Curitiba, marca o retorno ao palco da atriz, de 65 anos, depois de um afastamento radical de 25 anos (ela continuou, no entanto, ministrando cursos de teatro). "O que tem me sensibilizado nessa volta não é só o aplauso, mas os abraços comovidos, às vezes sem palavras, das pessoas que vão nos cumprimentar depois da peça", diz a atriz, com a mesma suavidade na voz com que interpreta sua personagem.Foi o diretor e autor de Anjo Duro, Luiz Valcazaras, que a convenceu a retornar à cena, oferecendo-lhe uma personagem tão marcante como as que interpretara no passado. Berta não hesitou. Tinha energia de sobra para retornar ao teatro, depois da longa ausência. "O Luiz foi me fazendo entender devagarzinho suas idéias sobre a personagem", afirma a atriz. Ela diz que ficava de três a seis horas diárias buscando a melhor interpretação. "É engraçado, não sou dotada da menor força física, mas me sobra força de vontade; o Luiz sugeria que parássemos e eu dizia: ´Não, vamos continuar, me sinto bem´", conta. "Só depois de parar um ensaio, aí sim, sinto todas as dores", confessa, com certo gracejo.Afeto e arte - O convite foi feito há dois anos. "Quando o Luiz falou comigo, eu já estava lendo dois livros escritos pela Nise: O Mundo das imagens e Imagens do Inconsciente, relembra Berta, que é casada com o psicanalista Wolney de Assis. "Achei muita coincidência o convite chegar naquele momento."Lendo os livros da psiquiatra brasileira, nascida em Maceió, Berta revela ter ficado impressionada com sua personalidade, marcada por um forte temperamento, por um lado, e uma compaixão sem limites, por outro.Nise da Silveira foi uma inovadora no tratamento clínico de esquizofrênicos, a partir da década de 30, e a introdutora da psicologia de Carl Jung no Brasil. Amava plantas e animais e manteve uma forte convivência com seu pai. Quando ele morreu, em 1927, decidiu ir sozinha para o Rio. "Ela foi uma das grandes pensadoras do nosso século, uma mulher repleta de inteligência, abertura e grande generosidade", enaltece Berta.Cartas - A base do espetáculo é justamente o conteúdo das cartas escritas pela psiquiatra ao filósofo Spinoza. Nise repudiava os métodos psiquiátricos da época, marcados pelo uso abusivo de medicamentos e pela aplicação de eletrochoques em pacientes portadores de deficiência mental. Em substituição a tais procedimentos, os pacientes tratados por ela eram estimulados com afeto e arte. Nise era mesmo um anjo de pessoa, mas sabia como ser dura para defender suas idéias.Além do fluxo das idéias emitidas a Spinoza, que dão base à peça, Anjo Duro, que consumiu dois anos de trabalho, entre pesquisas e ensaios, retrata também sua estada como aluna da Faculdade de Medicina da Bahia, na qual era a única mulher no meio de 157 homens, além de mergulhar na história de sua prisão, ocorrida em 1935, durante o Estado Novo.Por suas idéias, consideradas avançadas, ela foi presa juntamente com o escritor Graciliano Ramos e com Olga Benário, mulher de Luiz Carlos Prestes, deportada por Getúlio Vargas para a Alemanha nazista, e morta num campo de extermínio de judeus. Mas a trégua, muito pelo contrário, não pôs termo à obra.A partir de 1946, a psiquiatra fundou a Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (STOR), no Rio. A partir de muitos estudos e com sua verve rebelde e criativa, ela criou um espaço inovador, onde os internos eram tratados, acima de tudo, com respeito. Em 1952, ela ramificou suas atividades, com a criação do Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio, um acervo de pinturas, desenhos e esculturas de seus pacientes, defendendo que, por meio da expressão artística dos esquizofrênicos, era possível compreender seu estado emocional. Já, em 1956, criou com a ajuda de colaboradores, a Casa das Palmeiras, uma instituição de suporte a pacientes provenientes da STOR.Coração na mão - Apesar da boa acolhida da peça, em sua primeira temporada, com críticas elogiosas a sua interpretação, Berta diz entrar sempre em cena "carregando o coração na mão", uma vez que não gosta de pôr um ponto final em seu trabalho de interpretação. "A gente está mudando o tempo todo; com a interpretação ocorre o mesmo, a cada dia ela deve ser diferente", sublinha a atriz, que estreou profissionalmente na década de 50, ao lado de Sérgio Cardoso, no papel de Ofélia, na antológica montagem de Hamlet.Berta lembra com carinho de Alfredo Mesquita, quando ele dirigia a Escola de Arte Dramática, onde se formara, em 1956. "Ele nos estimulava a conhecer tudo de teatro, tínhamos uma formação caleidoscópica, que ia do conhecimento dos grandes clássicos ao aprendizado de sonoplastia e iluminação."A carreira da atriz foi marcada por sucessos. No teatro, sob a direção de Alberto D´Aversa, recebeu o Prêmio Saci, em 1960, pela interpretação da filha muda da peça Mãe Coragem, de Brecht. Com O Milagre de Anne Sullivan, de Helen Keller, em 1967, recebeu o Prêmio Molire. Viajou a Paris e ficou impressionada com os trabalhos de um grupo africano de teatro, do qual ela não lembra mais o nome."Quando voltei ao Brasil, achei que, montando a minha própria companhia, poderia trabalhar com um teatro que ressaltasse nossa brasilidade." O Teatro Móvel, sua companhia fundada em 1970, viajou pelo Brasil durante muitos anos, apresentando um teatro popular. Em 1972, Berta fez grande sucesso como protagonista da novela "Vitória Bonelli", de autoria e direção de Geraldo Vietri.Então surgiu a cisão. Berta montaria uma nova peça, no início dos anos 70, "A Vinda do Messias", de Timochenco Wehbi, na qual protagonizava a moça interiorana que caía de pára-quedas no agito da cidade grande. Por falta de preparo intelectual (e moral, também), a personagem deixava-se massificar pelas ondas do consumo, até que sua linguagem começava a multifacetar-se. "O espetáculo exigia demais de mim, sempre achava que não chegaria à última cena."Depois de três anos viajando com a peça, Berta resolveu abandonar os tablados. "Acho que também precisei buscar minha própria linguagem, uma verdade mais certa para o palco e para a vida."Anjo Duro - Drama. Texto e direção de Luiz Valcazaras. Duração: 2 horas. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 15,00 e R$ 20,00 (sábado). TBC - Sala Arte. Rua Major Diogo, 315, tel. 3115-4622. Até 24/9.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.