Bernadette Lafont, a noiva do cinema

Um encontro com a atriz, ícone da nouvelle vague francesa, que morreu no último dia 25 de julho, aos 74 anos

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2013 | 02h17

Quem a viu não a esquece - Bernadette Lafont foi um furacão de beleza e sensualidade que assolou o cinema francês por volta de 1960. Havia a loira Brigitte Bardot, que virou mito, e em torno delas gravitavam Mylène Démongeot, Pascale Petit. Bernardette era de outra escuderia - a musa da nouvelle vague, presente nos filmes de Claude Chabrol, François Truffaut e Jacques Rivette. Mais tarde, ela seguiu na linha de frente do cinema autoral francês - Philippe Garrel, Jean Eustache. Mas não foi só uma atriz cult. Em cada década, ela teve pelo menos um grande estouro de bilheteria - o mais recente em Paulette, de Jérome Enrico, com o qual superou a marca de um milhão de espectadores na França.

O que fez o filme sobre a velha desbocada e racista, incapaz de amar o próprio neto porque o garoto herdou a pele negra do pai africano, virar um sucesso tão grande? O diretor Jérome, filho de Robert Enrico (de Os Aventureiros, com Alain Delon e Lino Ventura, lembram-se?), num encontro com o repórter em Paris, em junho, creditou a fortuna do filme a Bernadette. "Ela é fantástica", disse. A própria Bernadette, que também foi entrevistada pelo repórter - nos Encontros do Cinema Francês, promovidos pela UniFrance -, dizia que a personagem tinha a cara da francesa média. E mais - acrescentou que se inspirara na rabugice de seu pai. "Ele também tinha um discurso racista, mas não era má pessoa e, muitas vezes, surpreendia com rasgos de generosidade para aqueles que insultara pouco antes."

Bernadette parecia bem. Aos 74 anos, a brunette (morena) havia ficado platinada e era, certamente, uma senhora, mas mantinha o sorriso cativante e certos gestos muito femininos revelavam que ainda havia fogo sob aquelas cinzas. No último dia 25, uma quinta-feira, ela morreu de complicações cardíacas, em Nimes, onde nasceu (em 1938). A entrevista, talvez uma das últimas que concedeu, virou tributo a uma figura que, na França como no imaginário do cinéfilo, foi icônica. Seu nome significava trabalho. Em 55 anos de carreira, iniciada em 1958 - com Nas Garras do Vício (Le Beau Serge), de Chabrol -, Bernadette participou de mais 120 longas, quase o mesmo número de telefilmes, mais 20 curtas e 40 peças, desde textos de Turguêniev e Chekhov aos Diálogos da Vagina, peça com a qual ficou anos em cartaz.

Como foi possível fazer tanta coisa? "É divertido interpretar." Em francês, a palavra é 'jouer', que também se aplica a brincar. Bernadette fez tudo isso - clássicos - brincando. Era uma mulher de ideias firmes. Considerava Les Bonnes Femmes, outro Chabrol, de 1959, um filme avançado para sua época. "Para mim, é tão grande quanto As Regras do Jogo, de Jean Renoir. Um dia as pessoas vão se dar conta disso." Sobre o seu Truffaut de 1972, Uma Jovem tão Bela Como Eu - havia feito o curta fundador do cinema do diretor, Les Mistons, em 1957 -, ela repetia o que lhe disse o próprio cineasta. "É a revance de O Garoto Selvagem, a história de uma mulher 'sauvage' que a sociedade não consegue recuperar."

Sua sensualidade batia tão forte na tela que ela ria ao se lembrar - "Quando Jean Eustache mostrou La Mamain et la Putain em Cannes, as pessoas tomaram um choque ao descobrir que eu fazia a mãe. Todo mundo me esperava como a puta". Foi uma vida tão movimentada que foram necessários dois livros de memórias para dar conta de tantas histórias - o primeiro, por volta de 1970, chamou-se La Fiancée du Cinéma, A Noiva do Cinema, pegando carona no filme La Fiancée du Pirate, que fez com Nelly Kaplan - e também estourou na bilheteria, em 1969. O outro, nos 90, Le Roman de Ma Vie, O Romance da Minha Vida.

Ela teve um rumoroso caso com um escultor húngaro que virou cineasta - Diourka Medveczky. Fez dois filmes com ele, Marie et le Curé e Paul. Também tiveram três filhos - David, Elisabeth e Pauline, que virou atriz, com o nome da mãe, Pauline Lafont. Paul, feito em 1969, embora chamado de obra-prima por Cahiers du Cinéma, nunca teve distribuição comercial (nem na França). "Ele é louco, mas genial. Se tivesse persistido na carreira poderia ter-se tornado um dos maiores." A pergunta que não quis calar - Bernadette trabalhou com grandes autores da nouvelle vague, e até outros cuja filiação ao movimento é objeto de controvérsia, como Louis Malle. Mas nunca filmou com Eric Rohmer nem Jean-Luc Godard.

"O caso com Eric é bem simples - sou a menos rohmeriana das atrizes, e os dois sempre soubemos disso." Com Godard, houve um princípio de namoro. "Jean-Luc sempre quis fazer Acossado com Bebel (Jean-Paul Belmondo) e Jean Seberg, mas houve um momento em que parecia impossível para ele conseguir a participação de Jean. Ele queria a dupla. Sem Jean, não haveria Bebel. Jean-Luc chegou a nos contactar, Charles Aznavour, que ainda não havia feito Tirez sur le Pianiste (Truffaut, 1960), e eu. Felizmente, deu certo com Jean. Não consigo me imaginar em Acossado."

Um de seus últimos filmes foi Le Skylab, de Julie Delpy, de 2011. Ela faz a matriarca cujo aniversário a família se reúne para comemorar. À noite, a netinha vai se despedir de vovó, e diz com a singeleza das crianças que, se a velhinha morrer durante a noite, partirá sabendo do amor da garota. Bernadette, a personagem, se emociona, mas diz que isso, a morte, não vai ocorrer. A dela veio de forma tão inesperada. Ficam as lembranças da noiva do cinema.

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