Berlioz em efeito mágico

Maestro Marc Minkowski mostra competência e paixão em novo CD

O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2012 | 03h11

O maestro francês Marc Minkowski completa 50 anos em outubro. E parece ter uma infinita mala de surpresas para encantar quem gosta de música executada com paixão, competência e inteligência - rara inteligência. Ex-fagotista, aos 22 anos fundou os Musiciens du Louvre na cidade de Grenoble, uma orquestra que pratica a chamada música historicamente informada.

Na última década, surpreendeu a quem assistiu a seus concertos em São Paulo no saudoso Teatro de Cultura Artística com as últimas sinfonias de Mozart. Seu Mozart é deslumbrante, no sentido de inovador, jamais ouvido antes. Em 2005 ousou de novo, construindo uma sinfonia imaginária que Rameau jamais compôs, a partir de aberturas e trechos de óperas. Não hesitou, por exemplo, em fazer nova orquestração para La Poule e suprimir a parte vocal de dois trechos. O resultado é extraordinário.

Minkowski gosta de lembrar que os compositores em geral perseguem o grande som, o "efeito magnífico" da orquestra. E se pergunta: por que negar-lhes o que eles solicitam? Pois ele ataca novamente. Desta vez com um CD do selo Naive inteiramente dedicado a Hector Berlioz, o mais ambicioso orquestrador do século 19. Minkowski rege a sinfonia com viola solista Haroldo na Itália e o ciclo de canções Noites de Verão.

A sinfonia com viola solista Haroldo na Itália nasceu como encomenda de Niccolò Paganini em 1834. O diabólico virtuose genovês do violino encantara-se com a música de Berlioz - e chegou a ajudá-lo com vultosas somas de dinheiro. Pediu-lhe que compusesse um concerto para sua viola Stradivarius. "Tenho um instrumento formidável, mas não tenho o que tocar com ele em público. E só confio em você." O compositor deixou de lado seus sonhos de triunfar com uma ópera. "Imaginei uma série de cenas em que a viola ora se mistura, ora se destaca na massa orquestral." Usou o mote do personagem de Byron, Chile Harold, e o pôs em andanças pela luminosa Itália.

Para você saber o que Berlioz achava da viola, eis o que ele escreveu em seu tratado de orquestração: "É tão ágil quanto o violino, o som de suas cordas tem um quê de picante. Suas notas agudas brilham por seu acento tristemente apaixonado e seu timbre, em geral de profunda melancolia, difere dos demais instrumentos de arco."

Paganini considerou a obra pouco virtuosística, indigna de seus talentos diabólicos - e jamais a executou em concerto. A sinfonia, como sempre programática - Berlioz não sabia nem queria fazer música absoluta -, descreve nosso Haroldo-viola nas montanhas, com direito a cenas de melancolia, felicidade e alegria. Ele ouve, no segundo movimento, uma encantadora marcha dos peregrinos cantando a prece da noite e em seguida uma sedutora serenata de um montanhês dos Abruzos à sua amante. No movimento final, Berlioz enxerta uma orgia de ladrões com as lembranças das andanças pela Itália. A viola envolvente e calorosa de Antoine Temestit não tem concorrência. Está simplesmente perfeito. Assim como os sempre vibrantes Musiciens du Louvre.

Minkowski brilha ainda mais quando acompanha a outra estrela desta soberba gravação, a mezzo-soprano sueca Anne Sofie von Otter. Ela está com 56 anos - e há quem diga que sua voz está em declínio. Sinceramente, não concordo. Ela ainda tem condições de construir uma performance de excelência neste célebre ciclo de canções, com destaque para a belíssima Le Spectre de la Rose. Arrisco-me até a afirmar que esta performance é anda mais refinada (também por causa dos instrumentos de época) do que a primeira de Von Otter, de 1995, com a Filarmônica de Berlim e James Levine. O bônus, em que voz e viola contracenam, é igualmente feliz: Le Roi de Thulé, canção gótica da Damnation du Faust, de Berlioz. E o encarte de 80 páginas é não só luxuoso como muito rico, do ponto de vista informativo e visual.

Crítica: João Marcos Coelho

JJJJ ÓTIMO

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