Berlim entre os escombros

O testemunho de como foi amanhecer sem o Führer, mas com soldados soviéticos na cidade

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2012 | 21h25

As atrocidades do pós-guerra foram testemunhadas pela jornalista alemã Ruth Andreas-Friedrich (1901-1977) que, no comovente Diário de Berlim Ocupada 1945-1948 descreve o cenário infernal da capital alemã destruída e tomada por soldados estrangeiros após o suicídio de Hitler. Durante a guerra, a jornalista fazia parte do grupo de resistência Onkel Emil, de Berlim, tendo ajudado muitos judeus a conseguir documentos falsos para fugir da Alemanha sob domínio nazista. Quando a guerra acabou, em 1945, ela e mais outros amigos integrantes do Onkel Emil saíram do porão onde se escondiam para ver na superfície um horror comparável ao que combatiam: no lugar dos nazistas, encontraram soldados soviéticos pilhando sem pudor objetos das casas dos alemães e estuprando adolescentes, depois obrigadas pelo pai a se matar para “salvar a honra” da família.

Sem água, sem luz, sem rádio e em ruínas, Berlim amanheceu num domingo, 20 de abril de 1945, com aviões de mergulho atacando, granadas explodindo e soldados russos avançando sobre os escombros e cadáveres em estado de decomposição. A jornalista começa sua narrativa nesse dia, relembrando como um maestro, um editor, um médico, uma atriz, uma secretária e uma editora - a própria- trabalharam clandestinamente contra o Reich, ao contrário do que aconteceu na Paris ocupada, de intelectuais omissos, descritos no livro de Alan Riding.

Na Berlim ocupada pelos soldados russos, os que foram afiliados ao Partido Nacional-Socialista de Hitler eram convocados para retirar entulhos, desenterrar corpos e limpar galerias de esgotos. Os “imaculados”, que se mantiveram a distância dos nazistas, eram recompensados com cartões de racionamento: escritores, músicos e atores, no entanto, tinham de conseguir um atestado de “boa conduta”, preencher formulários e asseverar inocência. “É difícil pleitear tratamento humano quando a miséria, a ganância e o caos tornam secundários todos os escrúpulos”, escreve a jornalista em setembro de 1946.

Ruth Andreas-Friedrich conclui seu diário em 1948, quando trocou Berlim por Munique e continuou a exercer sua atividade jornalística. Escreveu apenas dois livros: o primeiro, Diário de Berlim Clandestina (1938-1945), conta de que modo se formaram os grupos de resistência como o Onkel Emil e a militância daqueles alemães que poderiam ter emigrado, mas preferiram ficar e ajudar pessoas perseguidas pelo regime nazista. Um belo contraponto ao comportamento omisso de alguns reconhecidos intelectuais franceses citados por Alan Riding em seu precioso Paris, a Festa Continuou.

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