Berlim dedica semana a Nelson Rodrigues

Uma coletânea de crônicas de futebol de Nelson Rodrigues, recentemente lançada na Alemanha para aproveitar o interesse pelo esporte e pelo Brasil por causa da Copa do Mundo, está sendo usada como ´gancho´ para uma semana inteira de eventos sobre o dramaturgo brasileiro em Berlim. A partir de hoje, o público berlinense poderá assistir a leituras dramáticas de peças, retrospectivas de filmes e séries de tevê baseadas na extensa obra de Nelson. A semana será encerrada com um debate sobre a obra do escritor com a presença de Ruy Castro, jornalista, colaborador do Estado e autor da biografia O Anjo Pornográfico. O objetivo da semana de eventos, que serão realizados no Volksbühne, "o teatro do povo" de Berlim Oriental, e na sede da Embaixada do Brasil, é aproveitar o interesse alemão pelo futebol para mostrar que o Brasil tem muito a oferecer em literatura e artes visuais. Nelson Rodrigues servirá como uma espécie de espelho para a cultura do País. Cronista esportivo brilhante e torcedor fanático do Fluminense, foi, porém, nos estudos psicológicos teatrais que ele deixou sua marca: a análise, em tintas tragicômicas, da classe média carioca em todas as suas cores - especialmente as mais carregadas, justamente aquelas que todo mundo tem interesse em manter em segredo. Os organizadores querem mostrar que o futebol é parte do Brasil - e não o contrário. O recente lançamento da coletânea Gooooool! - ainda que em edição de gosto duvidoso, a começar pelo título, cortesia da editora Suhrkamp -, serve a um propósito maior: a apresentação do universo de Rodrigues ao público alemão, parte do projeto Copa da Cultura, desenvolvido pelos ministérios da Cultura e das Relações Exteriores. Hoje, A Falecida, texto originalmente encenado em 1953, ganha leitura dramática em alemão no Volksbühne, o mesmo que já abrigou peças brasileiras como a adaptação livre de José Celso Martinez Corrêa para Os Sertões, de Euclides da Cunha. Os tradutores alemães, por algum motivo, resolveram rebatizar o texto de Um Enterro de Primeira Classe - título que basicamente explica a trama da peça, que gira em torno de Zulmira, uma mulher cujo único desejo é ser sepultada em grande estilo. Amanhã, a embaixada exibe episódios da série A Vida como Ela É, antes exibidos pelo programa Fantástico, da TV Globo. As tramas, originalmente escritas nos anos 50 para o jornal carioca A Última Hora, mostram em cerca de oito minutos o universo do autor e os temas que se repetem em sua obra, como traição, incesto e segredos familiares. De A Vida como Ela É saíram textos como A Dama do Lotação, que foi adaptado com sucesso para o cinema com Sônia Braga, em 1978. Foi também da série que surgiu uma das mais famosas frases de Nelson Rodrigues. O escritor, após narrar a história de um marido que, após sofrer consecutivas humilhações da mulher, lhe dá uma surra no meio da rua e salva o casamento da ruína, concluiu: "Toda a mulher gosta de apanhar." Também será exibido amanhã o média-metragem Fla-Flu, produzido pela rede de tevê franco-alemã Arte, em que Rodrigues e seu irmão Mário Filho comentam a paixão brasileira pelo futebol e a eterna rivalidade entre Flamengo e Fluminense. Na quarta, é a vez de uma das poucas bem-sucedidas versões de Nelson Rodrigues para o cinema: Toda a Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor, com Paulo Porto, Paulo César Peréio e Darlene Glória como a prostituta Geni, em papel que marcou a carreira da atriz. Produzido em 1973, o filme recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim. Na quinta-feira, Ruy Castro vai falar sobre a vida e a obra do dramaturgo. Para fechar a semana, na sexta-feira, o professor Paulo Soethe, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), debaterá o universo rodriguiano com três especialistas alemães em dramaturgia brasileira.

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