Berlim, cidade feita de sons

Trilha de filme clássico de Walter Ruttmann é recuperada e documenta importância do compositor Edmund Meisel

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2012 | 03h09

Um dos grandes documentários clássicos do cinema mudo alemão tornou-se célebre também por causa de sua trilha admirável, escrita por Edmund Meisel, compositor austríaco que morreu jovem, aos 36 anos, em 1930. O filme, dirigido por Walter Ruttmann, estreou em Berlim em 23 de setembro de 1927 e se intitulava Berlim, Sinfonia de uma Grande Cidade. Celebrava, em imagens e sons vibrantes, a Berlim renascida na década seguinte à devastação da Primeira Guerra.

Perderam-se as partituras originais de Meisel. Restou apenas a versão para piano. A instrumentação previa, além da orquestra convencional, uma seção de sopros reforçada, à maneira de uma big band. Um precioso CD do selo alemão Capriccio, recém-lançado, traz a partitura orquestrada por Bernd Thewes a partir da versão de piano e das indicações de instrumentação, com Frank Strobel à frente da Sinfônica da Rádio de Berlim.

Arrojado e experimental, Ruttmann imaginou Berlim como uma grande e desmesurada máquina vibrante. Meisel não deixou por menos: sua trilha é brilhante, feérica, impactante, um fino porém estridente contraponto tecido no embate de homens e máquinas. "A música de Meisel", escreve a pesquisadora Nina Goslar, "enfatiza a musicalidade da montagem, que mostra as entranhas da enorme engrenagem de produção, distribuição e consumo de bens, produtos, arte". Ruttmann deixou claro: queria fazer um "filme-sinfonia".

Muito do modo de trabalho que resultou nesta trilha original sinfônica que se sustenta até sozinha, pela qualidade de invenção, Meisel aprendeu no ano anterior, 1926, quando compôs a trilha do célebre Encouraçado Potenkim, de Eisenstein. Este queria "uma nova qualidade na estrutura do som", uma espécie de "filme-som (...) onde verdadeiros modelos desta forma de arte vivem numa unidade de imagens visuais e sonoras fundidas, compondo a obra como uma unidade audiovisual unificada".

Meisel foi o mestre inconteste da música para filmes mudos. Ele queria provar que a montagem de um bom filme baseia-se nas mesmas regras e se desenvolve do mesmo modo que a música. Tese ousada, que no caso deste Berlim fica plenamente provada. Ela é tão importante quanto a de Encouraçado Potenkim. Nela, Meisel foi ainda mais longe no rompimento com a função meramente ilustrativa das trilhas sonoras, influenciando fortemente a música de cinema posterior. A música de Berlim até hoje impõe-se como autônoma.

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