Bergman e a súmula de sua arte

Fanny & Alexander sai em duas belas edições, como filme e série de TV

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2012 | 02h10

Ao longo de sua história, e por meio do Oscar de melhor filme estrangeiro - em língua não inglesa -, a Academia de Hollywood soube reverenciar grandes diretores que fizeram avançar a arte e, por que não?, a indústria do cinema em seus países. Os campeões de estatuetas foram dois italianos - Vittorio De Sica e Federico Fellini - e um sueco - Ingmar Bergman. A Versátil recupera o último filme de Bergman a vencer o prêmio da Academia. E o melhor é que lança Fanny & Alexander em duas versões.

A Coleção Definitiva traz, em dois DVDs duplos, o filme tal como foi lançado nos cinemas de todo o mundo em 1982, com um monte de extras sobre os bastidores e a carreira do grande autor. O outro DVD, também duplo, traz a série original de TV. Passaram-se cinco anos da morte de Bergman, em 30 de julho de 2007. O cinéfilo não se esquece de que naquele dia morreram dois grandes do cinema - o outro foi o italiano Michelangelo Antonioni.

Chamado de documentarista do neorrealismo, Antonioni desviou o cinema italiano da sua vocação social (miserabilista?) - com Crimes d'Alma, em 1950, ele inicia sua acurada análise psicológica e social da burguesia. Começa uma nova fase - superado o período de desemprego e falta de moradia, a Itália, reerguida economicamente pelo Plano Marshall, se aburguesa e Antonioni então fala da alienação de uma classe que será atormentada por solidão e incomunicabilidade.

Mais ao norte, na Suécia, Bergman faz outra análise. Filho de um pastor religioso, ele cresceu sob a tutela desse pai luterano (e severo), que lhe incutiu o pavor da punição divina. A culpa, desde cedo, persegue o jovem Bergman. Obcecado pela morte, ele busca respostas - Deus existe? E o que há depois da morte? Mas isso é só 'meio' Bergman, pois ele também foi sempre atraído pelo mistério das mulheres. Apaixonado por elas, fez filmes como Mônica e o Desejo e Sorrisos de Uma Noite de Amor, nos anos 1950.

Harriet Andersson foi o furacão sexual que consumiu Bergman na primeira metade daquela década. Em Paris, Jean-Luc Godard, jovem crítico, apaixonou-se pela atriz e, quando começou a fazer cinema, na nouvelle vague, lembrou-se da simbiose entre arte e vida de Bergman. Não apenas ele - François Truffaut foi outro que embaralhou os limites, fazendo filmes, como lembram seus colaboradores, para dormir com as atrizes. Bergman fez, em Fanny & Alexander, uma espécie de súmula de sua vida. O filme começa num suntuoso jantar de Natal, com iguarias e a lanterna mágica pela qual ele era atraído.

São duas crianças, um casal de irmãos. A fartura inicial vira restrição quando o pai morre e a mãe se casa de novo, com um pastor que inicia uma outra fase, de terror, para a dupla. A exemplo de Cenas de Um Casamento, de 1974, Bergman concebeu Fanny & Alexander em capítulos, para TV. Isso não impediu que a versão para cinema ganhasse o Oscar. Você pode agora comparar a versão original com a sua redução para o cinema. Bergman nunca foi mais barroco - nem cruel. O filme é deslumbrante. O próprio Bergman definia sua arte - o cinema - como teatro. "Tudo, definitivamente, é teatro, da sexualidade à nossa relação com Deus." Sexo e fome impulsionavam o homem, ele também dizia. O sexo gerava tormento, agudizado pelo que definia como "o silêncio de Deus". Tudo está na coleção completa do filme, um item para cinéfilo nenhum botar defeito.

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