Ros Kavanagh/Abbey Theatre Divulgação
Ros Kavanagh/Abbey Theatre Divulgação
Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2011 | 00h00

Quando a nevasca começou, no segundo ato, uma amiga, notória distraída, perguntou se era neve de verdade. Na plateia, me cobri melhor com o casaco, num reflexo dos convincentes efeitos especiais da produção de John Gabriel Borkman, uma peça invernal de Henrik Ibsen.

O personagem título, um banqueiro em desgraça, morre de frio tanto quanto de desgosto. Enquanto ouvia os personagens se despedaçarem com palavras, eu me perguntava se Ibsen teria imaginado aquela tragédia balançando numa rede, na brisa de Fortaleza.

Depois da prolongada ovação ao elenco estelar, comecei logo a fazer a lista mental do aconchego doméstico, longe do drama escandinavo: uma sopa já pronta, um novo episódio de uma série britânica de mistério, a manta no sofá, o telefone emudecido.

Quando, ainda menina, esticava chumaços de algodão para simular neve nos galhos da árvore de Natal de plástico, no tórrido verão do Rio, não podia imaginar o manto psicológico que nos cobre no longo e rigoroso inverno nova-iorquino. Rigoroso para uma carioca. Para quem vive na Dakota do Norte ou em Minnesota, Manhattan é uma ilha do Caribe.

Sem a alternativa animal da hibernação, o sono há que ser protegido nas noites longas. Mesmo as interrompidas às 5 da manhã, quando o despertador me sacode para o Jornal da Eldorado Primeira Edição. Aperfeiçoei um ritual para sobreviver ao boletim da rádio. Num contraste com o estúdio paulista em plena atividade, faço movimentos mínimos; acender a luz, nem pensar - santo iPad com sua tela iluminada; não abro emails para impedir agitação. Assim posso voltar a dormir e despertar com o dia já claro.

Meu primeiro inverno nesta cidade, nos anos 80, registrou um recorde de temperaturas e nevascas. Enquanto os nova-iorquinos reclamavam, eu celebrava a oportunidade até então desconhecida de diminuir o ritmo da vida. As ruas intransitáveis me permitiam pedir dispensa de compromissos sociais. O frio trazia introspecção e cheguei a imaginar se afetava a escrita. Claro que não. William Faulkner não se mudou do Mississippi para a Finlândia em busca de inspiração.

O rigor do frio inspira, sim, uma gentileza sazonal nesta cidade. O restaurante mais esnobe do meu bairro se torna leniente para acomodar chegadas sem reserva. O porteiro é mais solícito quando nos vê na calçada coberta de gelo. As visitas de amigos são marcadas por conversas mais intimistas. E os meteorologistas das TVs locais se comportam como conselheiros da população. Cientes de que ficamos mais dependentes da previsão de tempo, eles aproveitam a atenção extra para assumir uma oratória inflamada, com hipérboles sobre tempestades e riscos nas estradas. Desconfiamos de sadismo, quando eles anunciam, sorrindo, "a temperatura é de zero grau, mas com o fator vento você vai sentir menos 15 graus".

Até o imaginário do inverno para o couch potato americano tem inspirado fenômenos de marketing que viraram tema de comédia. O último a me arrancar lágrimas de riso foi Stephen Colbert, com uma paródia do novo sucesso, o Forever Lazy (Para Sempre Preguiçoso). Trata-se de um macacão horroroso de tecido sintético macio, com uma abertura prática para "chamados urgentes da natureza". O comercial do Forever Lazy, que mostra uma família inteira no sofá, vestida em macacões coloridos, já é uma sensação. Ele sucede o igualmente ridículo Snuggle, o popular e best-seller saco de gente com dois furos para os braços, cujo comercial já passou de 16 milhões de hits no YouTube.

Ao som do meu hino de inverno favorito, a deliciosamente marota versão de Baby It"s Cold Out There, na voz de Ray Charles e Betty Carter, acabo de espiar lá fora o novo tapete branco de 20 centímetros, meu álibi favorito para seguir o conselho do poeta William Blake. No tempo de plantar, aprenda. No tempo da colher, ensine. No tempo do inverno, desfrute.

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