Bendito Juarez!

Grande sax tenor ressurge, remasterizado, 50 anos depois

ROBERTO MUGGIATI , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2012 | 03h09

Quando os Estados Unidos descobriam a bossa nova, o Brasil descobria Juarez Araújo. Em 1962 e 1963, o saxofonista - que os próprios músicos consideravam nosso gênio maior da improvisação - gravava seus três primeiros álbuns para o selo Masterplay: Bossa Nova nos States, O Inimitável Juarez e Masterplay Goes to New York. Agora, meio século depois, estes vinis são lançados em CD pelo selo Discobertas, de Marcelo Fróes, em versão remasterizada, com as capas originais. Numa delas, o texto é de Sérgio Porto, que, entre suas múltiplas atividades, era crítico de jazz: "Nos EUA, grandes tenoristas como Sonny Rollins e Stan Getz conseguem expor com maestria sambas da bossa nova, mas perdem longe para Juarez por falta de apoio rítmico".

Juarez Assis de Araújo forjou sua arte na grande escola da sua juventude, as orquestras de dança. Nasceu em 1930, em Surubim, Pernambuco e ainda menino tocou clarineta na banda do padre Cleomâncio Leão, saxofone na banda do Colégio Salesiano, e todo tipo de sopros quando serviu no Exército. Tocou em igrejas, praças, feiras e bailes. Depois de brilhar nas orquestras das rádios Poty, de Natal, e do Jornal do Commercio do Recife, foi convidado para tocar na orquestra de danças de Clovis Elly, em São Paulo, em 1954. Num depoimento, ele diz: "Nunca pensei que um pobre nordestino de cabeça chata pudesse ir tão longe". O "longe" fica por conta das incursões internacionais - depois que fez o seu nome no Rio, a partir de 1956 - nos festivais de jazz de Montevidéu e Punta Del Este, no início dos anos 60, quando a revista de jazz Downbeat o apontou como um dos cinco maiores sax tenores do mundo. No Rio, Juarez enturmou-se com o "núcleo duro" da bossa (Tom, Menescal, Newton Mendonça) e tocou com João Gilberto.

O Brasil de 1962, com Jango na presidência, após a renúncia de Jânio, vivia grave crise política. Juarez e o jazz não estavam nem aí. Enquanto um punhado de notáveis da bossa defendia nossas cores no Carnegie Hall de NY, ele ralava em inferninhos, orquestras de estúdio, de rádio e TV, bailes e gafieiras, para garantir o leite das crianças.

E a música destes CDs? Cada um reproduz o vinil clássico de seis faixas por lado, média de duração da faixa entre dois minutos e meio e três minutos e meio. Os produtores respeitavam o limite de três minutos das antigas bolachas de 78 rotações. Havia uma vantagem nisso: no espaço restrito de cada faixa, o arranjo tinha de dar seu recado em poucos compassos - um desafio à criatividade. Ninguém sintetizava melhor arranjos e solos do que Juarez. O repertório é eclético: standards americanos (Deep Purple, sucesso da banda de Glenn Miller; Marie, celebrizada por Tommy Dorsey), Blue Moon, Tea for Two; hinos do bebop como Lullaby of Birdland, hits da hora (Matilda, Matilda, Al Di Là), clássicos da bossa (Samba de Uma Nota Só, Bim Bom) e até composições originais, como o Tema Pra Dedé, de Nelsinho.

Uma palavra sobre os músicos: Nelson dos Santos, o Maestro Nelsinho, entrelaça a voz quente do seu trombone com os voos do tenor de Juarez, arriscando-se a fugas e contracantos em temas como The Lady Is a Tramp e I Could Have Danced All Night. Entre os pianistas estão Fats Elpídio. José Marinho e Tenório Jr, tragicamente desaparecido nos anos de chumbo argentinos. Na guitarra, destaca-se Daldeth de Azevedo, o Neco; no contrabaixo, Tião Marinho; Bituca e Juquinha defendem uma bateria bem bossa.

Ruy Castro, autor do livro Chega de Saudade, falando do álbum Jazz Samba, de Stan Getz e Charlie Byrd, observa: "Não achei nada de mais. Sabe por quê? Porque já havia escutado o Bossa Nova nos States, o disco em que Juarez Araújo inverteu a equação para 'samba jazz' e fundou um novo idioma". Ainda iniciante, o saxofonista Mauro Senise tocou com Juarez na Rio Jazz Orchestra: "Era gente finíssima, dava sempre força para os novatos". E o crítico Arnaldo DeSouteiro, que produziu uma das últimas gravações de Juarez (no CD Love Dance, de Ithamara Koorax), retrata o saxofonista: "Respirava e se alimentava de música".

Na cultura mercantilista que se instaurou na MPB pós-TV, nem sempre eram bem recebidos os que respiravam e se alimentavam de música. Por uma cruel ironia, Juarez foi "sepultado" vivo em 1988 pela desinformada Enciclopédia da Música Brasileira, que o declarou morto em 15 de setembro de 1986. Ele sobreviveu 17 anos à falsa notícia: tocando até o último sopro, morreu em 2003, dois dias antes de completar 73 anos. Na verdade, Juarez Araújo não morreu. Continua vivo nas notas calorosas do seu tenor nestas vibrantes gravações.

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