João Milet Meirelles/Divulgação
João Milet Meirelles/Divulgação

Bença, Olodum!

Grupo de teatro da Bahia celebra seus 20 anos com novo espetáculo, que estreia hoje em Salvador

Deolinda Vilhena ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2010 | 00h00

Em 25 de janeiro de 1991, no centro histórico de Salvador, nascia o Bando de Teatro Olodum, em busca de um teatro onde bastasse "o homem, suas palavras e sua fome de emoção e contato". Para celebrar os 20 anos de existência da companhia negra mais popular e expressiva da história do teatro na Bahia, berço de talentos como Lázaro Ramos, eles criaram Bença, que tem como mote o respeito aos mais velhos e propõe o resgate da memória cultural da população afro-brasileira. O espetáculo ocupa, a partir de hoje, o palco principal do Teatro Vila Velha, sede da companhia na capital soteropolitana e de 3 a 12 de dezembro faz temporada no Teatro Tom Jobim no Rio.

Bença marca também a volta de Márcio Meirelles como diretor de teatro, após quatro anos como Secretário de Cultura da Bahia: "Pior do que não fazer teatro durante quatro anos, foi durante quatro anos não ser considerado um artista, mas apenas um administrador público, um gestor ou um ocupante de cargo político. Como se a minha história tivesse sido fragmentada, cortada ao meio, seccionada e tudo o que fiz antes fosse ignorado. Quando eu vi o Juca (Ferreira, Ministro da Cultura) pela primeira vez falar sobre os princípios do Ministério pensei: finalmente no ministério alguém vai pensar em cultura. Pois a verdade é que o Estado brasileiro cuidava dos artistas e não da população que é produtora de cultura."

Composto por 19 atores, dois músicos e cinco pessoas no núcleo de criação - Márcio Meirelles, diretor; Chica Carelli, codiretora artística e diretora de produção; Zebrinha, coreógrafo; Jarbas Bittencourt, diretor musical e Rivaldo Rios, diretor técnico - o Bando de Teatro Olodum depois de anos trabalhando para desenvolver o personagem, célula básica do teatro que buscava, optou por fazer, nas palavras de Márcio Meirelles, "um espetáculo sem personagem, sem enredo, sem história, um espetáculo muito mais conceitual, já que é um espetáculo sobre o tempo, e que é, de alguma forma, também um reinício. São 20 anos, ou a gente continua se colocando desafios, buscando coisas novas e recomeçando, ou envelheceremos no sentido bem preconceituoso de velho, ficando anacrônico, perdendo o diálogo com o século 21, com as redes, com a tecnologia. Bença é um espetáculo baseado no que a gente nunca fez, no que a gente não sabe fazer ainda, em busca de descobrir uma nova forma de falar talvez as mesmas coisas."

Respeito. O ponto de partida foram entrevistas feitas com mães de santo, líderes comunitários negros, pessoas que tenham o respeito de uma comunidade por sua idade, mas também pela sua história. Desses depoimentos, cinco foram selecionados para conduzir o discurso, a narrativa. Meirelles explica que há muito tempo queria pensar o teatro como discurso: "O teatro é uma linguagem, é um discurso, mas o discurso foi adquirindo esse suporte da fábula. E eu acho que outras linguagens como o cinema, a televisão, se apropriaram também dessa forma, desse suporte fábula para fazer seu discurso, enquanto o teatro perdeu um pouco a noção e o sentido de que o que está sendo feito ali é um discurso, um discurso político para a plateia. Quis retomar essa questão abrindo mão da fábula e buscar outros suportes narrativos que não a contação de uma história."

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