'Bem-Vindo a São Paulo' traz olhar estrangeiro sobre SP

Dezessete episódios retratam grandeza e miséria de São Paulo, por diretores recrutados pela Mostra de Cinema

Luiz Carlos Merten, do Estadão,

07 de setembro de 2020 | 19h29

Leon Cakoff gosta de dizer que "Bem-Vindo a São Paulo", que estréia nesta sexta, 21, é um filme sem orçamento. Mas tinha de ser assim. A idéia surgiu há três anos, durante as comemorações dos 450 anos de São Paulo. A cidade é tão grande, um mosaico tão variado de imigrantes, de influências e culturas. Como se poderia retratar toda essa diversidade no cinema? Por meio do olhar estrangeiro, claro.   Veja trailer de Bem-Vindo a São Paulo  "Em qualquer lugar é assim - o estrangeiro consegue captar coisas que escapam aos habitantes, porque, afinal, as pessoas não reparam no que faz parte do seu cotidiano", explica Cakoff. Um dos personagens mais conhecidos da cena cultural paulistana - criou a Mostra Internacional de Cinema, que ao longo de mais de 30 anos vem sendo referência no País e no exterior -, ele fez do seu evento um marco de defesa da diversidade. Um filme com o selo da Mostra não poderia ser diferente. Foi um filme feito por (e entre) amigos. Cakoff e sua mulher, Renata Almeida, não precisaram de muito esforço para persuadir os diretores estrangeiros, convidados da Mostra, a registrar seu testemunho sobre a cidade. Na maioria das vezes, os filmes foram feitos não apenas sem orçamento, mas também sem equipe. Os próprios diretores manejavam a câmera, uma mini-DV, e a equipe muitas vezes se resumia ao acréscimo de mais uma pessoa geralmente um intérprete. Raros episódios precisaram mais do que isso. Daniela Thomas precisou armar um dispositivo para prender a câmera na frente de um carro; Kiju Yoshida necessitou de um tripé; Wolfgang Petersen, de um vôo de helicóptero. E só. O primeiro a gravar seu episódio foi Phillip Noyce, cineasta australiano que desenvolveu boa parte de sua carreira nos EUA. Quando aqui esteve, para mostrar "Geração Roubada", Noyce disse que havia sido um bom soldado na guerra de Hollywood pela ocupação dos mercados de todo o mundo, com sucessos como  da série com o agente secreto interpretado por Harrison Ford, em "Jogos Patrióticos" e "Perigo Real e Imediato". Noyce teve carta branca - como os demais diretores - para filmar o que quisesse.Ele circulou pelo centro de São Paulo. Topou com a excursão formada por um grupo de estudantes do interior. Noyce descobriu a cidade com eles. Optou por filmar São Paulo do Marco Zero, na Praça da Sé. Todos os demais episódios foram sendo feitos com a mesma informalidade. "Quando convidamos o Wolfgang (Petersen), ele participava da campanha para que seu filme 'Adeus, Lenin' fosse indicado para o Oscar", lembra Cakoff. "Wolfgang voou daqui para Los Angeles, mas prometeu voltar. Voltou em março do ano seguinte (2005), para concluir o trabalho." Tsai Ming-liang fez o episódio dele horas antes de regressar a Taiwan. Como o acaso interferiu em vários dos filmes, ele encontrou um tanque de água - e todo mundo sabe como o diretor de "O Rio" é atraído pelo tema. O israelense Amos Gitai realizou seu curta, que não teve tempo de editar, mas deixou instruções que Leon Cakoff e Renata Almeida seguiram escrupulosamente. No total, são 17 episódios que retratam a grandeza e a miséria de São Paulo. Não possuem todos a mesma duração. Os mais curtos, em torno de 2 minutos cada, são de dois estreantes - o espanhol Max Lemcke e o italiano Andrea Vecchiato. O mais longo, o episódio do japonês Yoshida, com sua mulher Mariko Okada. A história daquela garçonete evoca os primórdios da colonização japonesa no Brasil, quando os japoneses, lembra Leon Cakoff , "vieram substituir os negros, como mão-de-obra barata, após a libertação dos escravos". Se o filme foi feito sem orçamento, a finalização, pelo contrário, teve de ser bancada. A Anhembi Turismo entrou com os recursos e aTeleImage f oi decisiva no processo de finalização - afinal, o filme foi feito e está sendo exibido em digital. São 8 cópias em todo o País, incluindo duas em São Paulo uma no Rio e as restantes em Curitiba, Porto Alegre, Fortaleza e Brasília. O próprio Cakoff encarregou-se de dar unidade ao filme. Caetano Veloso - homenageado por Maria de Medeiros, que recita com emoção os versos de Sampa em seu episódio - foi chamado para fazer a narração. Por quê? "Porque eu precisava de uma voz especial", diz Cakoff. André Abujamra fez a música, menos a do episódio de Daniela Thomas, assinada pelo irmão da diretora, o compositor Antônio Pinto. "Bem-Vindo a São Paulo" estréia com uma promoção atraente para cinéfilos. Você vê o filme, cria uma frase sobre a cidade, acrescenta o ingresso e concorre a duas permanentes da Mostra, em outubro.  No coração de quem vive a cidade Quem viu "Bem-Vindo a São Paulo" na Mostra de 2006 deve voltar aos cinemas que exibem o filme em 17 episódios, realizado por diretores que visitaram a cidade, a convite da Mostra Internacional de Cinema. Pois o filme sofreu algumas alterações. Leon Cakoff garante que som e imagem estão impecáveis e a própria estrutura foi mudada. "Abbas Kiarostami deu um conselho precioso. Ele achava que o episódio de Kiju Yoshida, por ser mais longo e reflexivo, estava mal colocado. Segundo sua indicação, deslocamos o episódio mais para o começo, evitando o que poderia ser uma quebra de ritmo", explica Cakoff, que, além de ser idealizador do projeto, assina um dos episódios "Natureza-Morta", com a mulher, Renata Almeida.  Phillip Noyce filma São Paulo a partir do Marco Zero, Maria de Medeiros recita os versos de Sampa, de Caetano Veloso, na esquina famosa das Avenidas Ipiranga e São João, Jim McBride faz ensaio sobre a arquitetura deteriorada da cidade, o palestino Hanna Elias manifesta estranhamento num ensaio da Escola de Samba Vai-Vai e Max Lemcke filma os letreiros da cidade como nunca se viu. Embora os demais sejam de diretores do prestígio de Tsai Ming-liang, Amos Gitai e Wolfgang Petersen, entre outros, o mais delicado é o episódio de Daniela Thomas, com partitura do irmão dela, Antônio Pinto. Ela filma o Minhocão. Considerado uma aberração, o Minhocão é humanizado e vira símbolo de São Paulo: congestionado durante o dia, vazio na madrugada e ocupado por pedestres no domingo.   Bem-Vindo a São Paulo (Brasil/2007, 100 min.) - Documentário. Dir. Kiju Yoshida, Phillip Noyce, Wolfgang Becker e mais 15 diretores. 12 anos. Cotação: Regular

Tudo o que sabemos sobre:
'Bem-Vindo a São Paulo'

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.