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Bem-vinda praga

Chega o Portal da Crônica, com joias de um gênero muito amado pelos brasileiros

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2018 | 05h36

Você já se cansou de ver um romance levar bordoada. Um livro de contos. Um ensaio. Uma coletânea de poemas. Mas pancada como realização literária – jamais como gênero. Ou vai dizer que já ouviu alguém afirmar que romance ou conto é em si uma porcaria? 

Repare: o único gênero em que se dá bordoada é a crônica.

Há mesmo quem diga que a coitada nem sequer é gênero; no máximo, um subgênero jornalístico com pretensões literárias. Mário Faustino, tão bom poeta quanto provocador audaz, via na crônica uma “erva daninha”, “praga” que “deu em quase todo mundo, Bandeira, Drummond...”, capaz de fazer “enorme mal à literatura, desfigurando-a”.

Crítico menos belicoso, Alceu Amoroso Lima não chegava a excessos faustinos, mas em todo caso achava que tais palmos de prosa, por bem realizados que fossem, não tinham envergadura para sobreviver ao jornal ou a revista que os publicava. “Crônica, num livro”, comparava ele, “é como um passarinho afogado”. 

Antonio Candido também sabia que a crônica “não tem pretensões a durar, uma vez que é filha do jornal” – “essa publicação efêmera que se compra num dia e no dia seguinte é usada para embrulhar um par de sapatos ou forrar o chão da cozinha”. Nem por isso mestre Candido subscreve a ornitologia literária do dr. Alceu: quando a crônica “passa do jornal ao livro”, anotou ele em A Vida ao Rés-do-Chão, “nós verificamos meio espantados que a sua durabilidade pode ser maior do que ela própria pensava”, na medida em que “pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas”. 

Não cai mal à crônica, assim, o rótulo que Otto Lara Resende viu ser nela aplicado em Portugal: “Literatura em mangas de camisa”. E, uma vez que a conversa nos levou ao guarda-roupa das letras, não custa observar que um texto assim trajado – de um Rubem Braga, por exemplo, que, como seus colegas de ofício, escrevia sob a pressão de prazos cruéis e de tamanhos inapeláveis – muitas vezes faz melhor figura que o fraque laboriosamente talhado na emperiquitada alfaiataria de muito romancista. 

*

Fosse esta prosa um artigo de jornal e o editor já teria puxado minha orelha, por haver lavrado acima um nariz de cera, denominação dos tortuosos prolegômenos que na imprensa de outros tempos o leitor era obrigado a encarar antes que a matéria finalmente lhe dissesse a que viera. 

No caso presente, o apêndice nasal jornalístico vem ao fato de que nesta quarta-feira, 12, entra no ar o Portal da Crônica Brasileira, iniciativa do Instituto Moreira Salles a que está associada a Fundação Casa de Rui Barbosa. No primeiro, o trabalho tem no comando a escritora Elvia Bezerra, coordenadora de literatura do IMS e curadora do Portal, ao lado de Rosangela Rangel, da FCRB. 

A ideia é tão simples quanto atraente: permitir braçadas e mergulhos no vasto universo da melhor crônica brasileira, do qual, para usar a imagem do dr. Alceu, apenas uma fração já se afogou em livro. 

O Portal, na largada, vai beber em acervos sob a guarda do Instituto Moreira Salles, onde estão conservadas milhares de crônicas de Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Rachel de Queiroz. E também no acervo de Rubem Braga e Clarice Lispector, aos cuidados da Fundação Casa de Rui Barbosa. 

O sexteto que marca a estreia do Portal, composto por grandes autores da era de ouro da crônica brasileira, situada entre os anos 1950 e 60, inclui ainda Antônio Maria, que ao morrer, em 1964, não deixou um único recorte da enorme quantidade de crônicas que espalhou na imprensa. No seu caso, a seleção, por ora, limita-se ao que foi reunido em livros, todos eles póstumos. 

De saída, você terá à disposição nada menos de 2.600 crônicas (das quais 816 de Rubem Braga). Uma pequena parte foi transcrita, para que possa ser abordada em celulares e tablets. A maioria, digitalizada, poderá ser vista e lida tal qual apareceu em jornais e revistas há mais de meio século. Já pensou? Um texto que resistiu ao tempo, degustado hoje com a cara que tinha na revista Manchete, no Correio da Manhã, no Diário Carioca... 

Mas há mais, muito mais – e, já que o jornalismo (provisoriamente!) tomou conta deste espaço, o melhor a fazer é dar a palavra a Mànya Millen, do Instituto Moreira Salles: além dos textos, conta a jornalista, “o Portal da Crônica Brasileira traz os perfis dos autores e menu de busca variada, que pode ser feita por temas, títulos, periódicos inclusive nas imagens”. Temas: amor, saudade, inveja, ciúme... – é ir jogando a rede e recolhendo. Ah, sim: “Uma vez por mês, o público poderá ouvir uma crônica gravada por um convidado”. A primeira delas: Meu Ideal Seria Escrever..., de Rubem Braga, na voz do poeta Eucanaã Ferraz, consultor de literatura do IMS.

Bem-vinda praga essa, saborosa e nutritiva erva daninha semeada pelos mestres Braga, Otto, Raquel, Paulo Mendes Campos, Clarice, Antônio Maria – e que bom saber que está apenas começando. Quem sabe a seu tempo não virão também Carlos Drummond, Manuel Bandeira, Fernando Sabino, Nelson Rodrigues, Cecília Meirelles, Carlinhos Oliveira...

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