Bem tolerado pelo establishment

Apesar de Seios Fartos e Quadris Largos ter sido proibido na China, Mo Yan é um escritor celebrado pelo establishment comunista. O vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2012 é vice-presidente da Associação de Escritores Chineses, organização controlada pelo Partido Comunista, criticada por não ter se oposto à perseguição de intelectuais pelo regime de Pequim. Entre as vítimas do Partido Comunista está o escritor e ativista Liu Xiaobo, Nobel da Paz em 2010.

PEQUIM, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2012 | 03h12

Mas o ato mais polêmico de Mo Yan entre os opositores do governo foi sua adesão a um livro que celebrou o aniversário de 70 anos do discurso sobre arte e literatura que Mao Tsé-tung proferiu em Yan'an. Nele, o líder comunista defendeu a punição dos escritores cujas obras não servissem aos propósitos da revolução comunista.

Mo Yan foi um dos cem intelectuais que reproduziram trechos do discurso com sua caligrafia no livro publicado no começo do ano. Escritores e ativistas chineses que se opõem ao regime comunista criticam Mo Yan por sua omissão na defesa de intelectuais perseguidos por Pequim, em especial Liu Xiaobo. O autor Ma Jian, que vive em Londres, afirma que Mo Yan pode mostrar "alguma crítica" à sociedade chinesa em sua obra, mas não se manifestou quando Liu Xiaobo foi preso.

Mo Yan é o primeiro chinês que não está preso nem exilado a ganhar um Prêmio Nobel e é o único escolhido a ser celebrado por Pequim. As premiações anteriores foram dadas a opositores do regime, que reagiu com fúria, especialmente na escolha do dissidente Liu Xiaobo para o Nobel da Paz de 2010. Liu Xiaobo foi condenado a 11 anos de prisão em 2009, sob a acusação de subversão.

Apesar de ser o primeiro "cidadão chinês" a ganhar o Nobel de Literatura, Mo Yan não é o primeiro "escritor chinês" escolhido pela academia sueca. Gao Xingjian, de 72 anos, venceu o prêmio em 2000, mas não houve festa em Pequim - perseguido pelo regime, o autor se refugiou em Paris no fim dos anos 80 e se tornou cidadão francês em 1997.

A escolha de Gao Xingjian foi desprezada em artigo publicado há quatro dias pelo jornal Global Times, ligado ao Partido Comunista. "Durante mais de cem anos, os nomes de autores chineses estiveram ausentes da lista de vencedores do Prêmio Nobel de Literatura", disse a publicação. O texto dizia que a obra de Gao reflete valores ocidentais e é "altamente controvertida" dentro do país -o que ignora o fato de que ela é antes de mais nada desconhecida em razão da censura. Em contraposição, Mo Yan foi descrito como "um dos mais lidos escritores na China e um típico autor chinês no sentido tradicional". / CLÁUDIA TREVISAN

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