Shahariar Lenin/Pixabay
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Bem-estar depois da pandemia

Rever os temas que abordei ao longo desses 18 meses é praticamente fazer uma retrospectiva da pandemia

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2021 | 03h00

Em março de 2020, logo que a quarentena foi decretada oficialmente em São Paulo, recebi um convite para escrever uma coluna neste caderno, Na Quarentena, enquanto durassem as restrições. “Vamos precisar de ajuda para atravessar esses tempos”, disse o editor coordenador do Núcleo Metrópole, Daniel Fernandes, jornalista que desde antes da pandemia já reconhecia o valor de se abordar a saúde mental na imprensa. “Acho que umas seis semanas, tudo bem?” Claro que topei o desafio, mas ninguém imaginava que aquele mês e meio se tornaria um ano e meio.

Rever os temas que abordei ao longo desses 18 meses é praticamente fazer uma retrospectiva da pandemia: das dicas iniciais para lidar com os períodos mais restritivos até a esperança com a chegada das vacinas, passamos pela necessidade de se criar uma rotina, tratamos das inevitáveis oscilações de humor, das perdas de ânimo e do cansaço e desesperança que nos assolavam de tempos em tempos, sempre lembrando que uma hora iria passar. Livros, seriados, comédia, jazz, Lego, quebra-cabeças, videogames, jogos de tabuleiro – no fundo, percebo que essas dicas falam tanto sobre a saúde mental como sobre mim mesmo. É impossível escrever qualquer coisa sem falar de si, aparentemente.

O meu esforço, contudo, foi sempre transformar essas dicas em algo universal, algo como apresentar os caminhos que me ajudaram e estimular que cada um perscrutasse a própria alma em busca do que poderia ajudar a si mesmo. O papel do intelectual é esse, afinal: compartilhar seus processos internos, deixando que sejam avaliados e eventualmente sirvam de inspiração para alguém, seja para aderir, seja para, criticando, desenvolver seus processos pessoais.

Tome o exemplo da minha grande paixão descoberta do ano passado para cá: a observação de pássaros. Tratei do tema mais de uma vez, como uma receita – particular – para lidar com esses nossos tempos sombrios; mesmo sabendo que não era para todos. Sim, trata-se de um dos hobbies de crescimento mais expressivos nos últimos tempos, atualmente com dezenas de milhões de praticantes. Mas mesmo que você não goste de passar tempo olhando para o alto, levando picadas de insetos e consultando guias para saber que pássaro era aquele, fato é que se envolver com a natureza, manter a mente focada, sustentar a atenção em estímulos prazerosos, tudo isso está sabidamente associado ao aumento do bem-estar. Observar aves é apenas uma das formas de colocar tudo isso em prática.

Agora, parece que estamos mesmo na reta final da pandemia. Sempre é preciso ficar de olho, mas de fato falar em quarentena é algo que já faz pouco sentido – ao menos por enquanto. Essa coluna termina hoje, portanto. Mas como a importância do bem-estar talvez seja hoje mais importante do que nunca, os leitores e leitoras não ficarão livres de mim. Além de seguir com o blog Psiquiatria e Sociedade no Portal Estadão, semana que vem estreio como colunista no novo caderno semanal chamado, justamente, Bem-Estar. Não para trazer fórmulas prontas ou dar dicas infalíveis. Mas para continuarmos a conversar sobre o que me ajuda e que, espero, possa ajudar você. Até lá. 

É PSQUIATRA DO INSTITUTO DE PSQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS. AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’

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