Bem e o mal segundo Budd

Dirigido por Peter Ustinov, obra de Melville discute questões filosóficas

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2011 | 03h06

Peter Ustinov (1921-2004) é conhecido como ator (lembra-se do Nero em Quo Vadis?), mas também dirigiu vários filmes. O mais notável deles é Billy Budd (1962, Lume), tirado de um romance de Herman Melville.

Billy Budd, lançado no circuito comercial com o inacreditável título de O Vingador dos Mares, tem outra característica interessante - lança a carreira do ator Terence Stamp, que anos mais tarde seria celebrizado como o anjo exterminador de Teorema (1968), de Pier Paolo Pasolini. Nesse filme, Stamp é um desconhecido que, belo como um deus, desestabiliza a família burguesa que o acolhe.

No filme de Ustinov, o papel de Stamp tem alguma semelhança com aquele que o celebrizaria no trabalho com Pasolini. Billy Budd é o "belo marujo", uma figura de destaque, pela beleza e simpatia, no árduo navio de guerra em que é engajado de maneira compulsória. Billy trabalhava num barco mercante, mas a Marinha inglesa, em guerra com a França, recrutava os braços que lhe faltavam por toda parte. Assim, Billy sai do navio sintomaticamente chamado Direitos Humanos para um pesadelo náutico batizado Avenger.

Budd é, na precisa definição de Pauline Kael, um príncipe Michkin dos mares, alusão ao personagem de Dostoievski em O Idiota. Tão bondoso e crente na bondade do seu semelhante que chega a ser parvo. Sua beleza física incomoda, o que vale uma alusão homoerótica mais visível em Melville que em Ustinov, e perturba outros personagens. Em especial, o mestre de armas do navio, o soturno Claggart (Robert Ryan), espécie de encarregado da ordem interna, um polícia dos marujos. O próprio Ustinov interpreta o Capitão Vere, homem que tenta ser justo e torna-se vítima da própria interpretação rígida da lei. Aliás, os perigos de se tomar a lei ao pé da letra (tema bastante atual, note-se) é um dos motivos centrais, senão "o" motivo principal de toda a história de Billy Budd.

Neste livro tardio, publicado após a sua morte, Melville (1819- 1891), como em outros romances e, em especial, em sua obra-prima, Moby Dick, toma o universo náutico como ponto de partida para uma reflexão aprofundada da condição humana. Dos desvãos da alma humana, em particular. Há uma ótima edição brasileira da Cosac Naify de Billy Budd, com tradução de Alexandre Hubner, texto de apoio analítico de Bernardo Carvalho e um ensaio iluminador de Cesare Pavese, escrito em 1932.

Em sua versão para o cinema (baseada menos no livro que na adaptação teatral do texto, de Lewis O. Coxe e Robert H. Chapman), Ustinov faz a opção certa. Deixa digressões e meditações filosóficas de Melville apenas latentes, a meia-água, e concentra-se na ação (cinema é palavra, mas também movimento). Através dessa ação, realçada pela bela fotografia em preto e branco de Robert Krasker, essa meditação moral aflora, em ato.

Billy Budd é personificação do bem absoluto, que se torna intolerável, tanto quanto o mal, depositado em Claggart. Como se a falível condição humana tolerasse apenas o bem e o mal relativos, entrelaçados em árdua convivência, e não na pureza dos seus polos contraditórios. Tanto o angelical Budd quanto o sádico Claggart disturbam a ordem mediana, avessa a extremos. Essa é uma maneira de ver o filme. Uma delas. Como sempre, em Melville, tem-se uma reflexão sobre o embate entre civilização e natureza, culpa e inocência.

A outra leitura, não excludente, refere-se à obediência cega da lei, sem qualquer atenção para condições atenuantes ou variantes do contexto em que deve ser aplicada. O Capitão Vere é um homem com propensão para a justiça, porém pressionado pelo pânico da indisciplina. De modo que a sua simpatia por Budd será tão natural quanto a aversão por Claggart. Na aplicação da lei, Vere também tentará ser justo. E a justiça, na sua interpretação, será a aplicação da lei de maneira textual. Essa será a sua tragédia e a de outros envolvidos no caso.

A força de Billy Budd, novela considerada inconclusa pela viúva de Melville, reflete-se em sua permanência. Sustenta-se como obra literária em si, de final mais misterioso que inacabado, mas também nos filhotes que gerou. Além da peça e do filme de Ustinov, a história do "belo marujo" é ponto de partida para a ópera homônima de Benjamin Britten, com libreto assinado por E.M. Forster. O poeta italiano Salvatore Quasimodo escreveu um Oratorio per Billy Budd, musicado por G.F. Ghedini.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.