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Bem dançado

Queria ser um Fred Astaire, mas isso não era para o seu bico, nem para o bico de seus sapatos

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

26 de novembro de 2019 | 03h00

Estavam os dois engalfinhados, suarentamente engalfinhados, entregues aos requebros de um arretado forró, sem uma palavra até então, quando a mulher, socada e desinibida, mais outoniça que primaveril, levou os lábios às imediações da orelha de seu par e, sussurrante, foi ao ponto, jogando na mesa, ou melhor, na pista, o que lhe parecia ser a sua decisiva arma de conquista:

– Eu tenho casa própria!

O dono da orelha, tantos anos passados, até hoje não sabe como foi que conseguiu manter-se firme nos arreios, quer dizer, nos braços da parceira, uma total desconhecida que minutos antes ele convidara para a dança. Já ouvi coisas na vida, conta, mas nada que se compare à falta de cerimônia daquela criatura. 

Passado o susto, veio a vontade de rir, e foi difícil chegar ao último compasso da música. Nem por um momento, garante meu amigo, lhe passou pela cabeça a possibilidade de trocar sua cidade por aquele fim de mundo, onde estava em missão profissional, por mais tentadora que fosse a ideia de não mais pagar IPTU. Mesmo com os corpos cavernosos da alma subitamente repletos de orgulho, pois embora bizarro era para lá de bom o reconhecimento de seus méritos como bailarino, não teve a ilusão de achar que a parceira pudesse estar movida por interesse de natureza carnal. Nunca tinha ouvido proposta mais direta e acachapante, mas, escaldado, sabia que os dotes pelos quais a criatura se encantara eram de ordem exclusivamente coreográfica.

*

Não é pouco, convenhamos. Os amigos do pé de valsa estão habituados a vê-lo convertido em objeto de disputa de pessoas do sexo feminino, sejam elas outoniças ou primaveris, donas ou não de casa própria, nos salões aonde vai rodopiar. A inveja que desperta o cavalheiro entre machos em geral é tanta que a prudência recomendaria plantar atrás da citada orelha um ramo daquela planta com poderes, dizem, de esconjurar o mau-olhado – planta essa, aliás, que ele próprio carrega como sobrenome. 

Um dos muitos invejosos, devo confessar, vem a ser certo cronista, você sabe qual, a esta altura um tanto dançado, mas em cujo peito sobrevivem, contra todo o bom senso, uns fiapos do sonho adolescente de ser um Fred Astaire. Sim, você leu bem, o cara sonhava ser ninguém menos que o Fred Astaire. Ou, na falta disso, ser alguém capaz de se desempenhar nos salões sem pôr em risco os pés de sua dama. Mas nem isso, bem sei, é para o meu bico, nem para o bico de meus sapatos.

Não teria cabimento, pois, ficar me lamentando – até por me lembrar, a cada passo, do que ensinou o Manuel Bandeira, sábio além de poeta, a um amigo mais jovem: é preciso saber escolher as próprias ignorâncias. O amigo, Otto Lara Resende, nos fez a todos o favor de repassar a lição, para proveito de miríades de criaturas – entre as quais me incluo, dono que sou de uma ignorância tão vasta quanto não especializada. Na verdade, estou conformado, até mesmo no capítulo coreográfico – e se você me vir um dia a subir pelas paredes, será certamente em sentido figurado, e sem nada que lembre a graça com que Fred Astaire o fez, em sentido literal, naquela sequência inesquecível de Núpcias Reais.

Não foi, acredite, por falta de tentar, com a mesma tenacidade com que tentei ser um ás do basquete, ou mesmo um modesto valete, nas pegadas do inalcançável pai que muito cintilou nas quadras. Eu me esforçava – que o digam a Beatriz e a Patrícia, que no salão do Hotel Colombo, em Araxá, nas férias de verão, faziam o impossível para destravar o adolescente desengonçado para o dois-pra-cá-dois-pra-lá de um bolero. Onde sobravam hormônios, faltava – tanto quanto no basquete – molejo. Mais tarde fui entender, na leitura de um autor hoje esquecido, o italiano Pitigrilli: elegância é uma questão de esqueleto. Fazer o que, se a natureza decidiu assim?

Sobrava também uma embasbacada admiração por um craque como o Rubinho, da minha turma de bairro, por quem nos bailinhos – em Belo Horizonte se dizia “hora dançante” – suspiravam todas as meninas. Ninguém brilhava mais que ele, sobretudo quando seus braços estreitavam a Yeyê, outra fera dos mais diversificados ritmos. Um espetáculo, aquela dupla, campeoníssima numa tribo a que não faltavam genuínos talentos de salão. 

A etiqueta, rígida, mandava que as moças não dispensassem o moço senão ao cabo de três músicas – menos que isso, equivaleria a um infamante impeachment; mas se o parceiro era o Rubinho, não havia menina que o soltasse antes que se escoassem as 12 faixas do LP. 

Já existia o rock, assim como o twist e o chá-chá-chá, mas dança, dança de verdade, era mesmo na modalidade cheek to cheek, sem prejuízo de outros pontos de contato além das bochechas, providos esses de ímãs bem mais poderosos. Ainda posso ver a Neninha, a Doia, a Sandra, a Betty, a Olinda... Ah, sim, vejo também aquela de quem você já tanto ouviu falar, então chamada pelo diminutivo, senão por carinho, por ser xará de sua mãe, portadoras, ambas do sobrenome Rousseff. 

Não faça a maldade de me perguntar se eu figurava entre os ineptos a quem as meninas não concediam mais do que as três faixas regulamentares. Se era assim, tive o cuidado de esquecer. Não me lembro, em todo caso, de pés femininos que eu tenha esmigalhado sob os meus. Mas devo admitir que, ali e mais adiante, nos incontáveis salões onde me aventurei, jamais alguém se achegou à minha orelha para anunciar que tinha casa própria, nem mesmo, ai de mim, casa alugada. 

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