Paula Huven/Divulgação
Paula Huven/Divulgação

Belmonte tenta a terceira via

Diretor abandona a guerrilha no seu novo filme, Billi Pig, que conclui hoje

Luiz Carlos Merten / RIO, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2011 | 00h00

Para o repórter do Estado, foi uma experiência e tanto. Na véspera, ele havia revisto na TV cenas de A Rainha Diaba, o cultuado filme de Antônio Carlos Fontoura, de 1974, em que Milton Gonçalves faz a travesti que domina, a ferro e fogo, o submundo das drogas na cidade grande. E, agora, no set do novo filme de José Eduardo Belmonte, Billi Pig, a primeira pessoa que o repórter vê é Milton Gonçalves, 40 anos mais velho e sempre impressionante como ator, na pele de um.... padre. "Bom-dia, monsenhor", o repórter simula a atitude respeitosa, senão pelo personagem, pelo ator. "Ah, não se preocupe, meu filho. Não sou um padre muito santo, não. Meu padre é pegador" - e Milton ri.

A entrada no set de Billi Pig não poderia ter sido mais descontraída. Autor de filmes cabeça como A Concepção, Meu Mundo em Perigo e Se Nada Mais Der Certo, José Eduardo Belmonte tenta algo novo. Quem cantou a novidade para o repórter foi o astro do filme, Selton Mello. "Como eu mesmo, que acabo de fazer O Palhaço, o Belmonte está procurando uma terceira via para o cinema brasileiro. Não podemos ficar sempre polarizados entre o blockbuster, o filme que faz vários milhões de espectadores, e o cinema autoral que fica nos 10/20/30 mil pagantes. Existe um espaço intermediário que queremos ocupar, eu, com o meu filme, o Zé, com o dele."

"Zé" (Belmonte) conclui hoje a filmagem de Billi Pig. O título refere-se a um boneco que é essencial na trama. Foram três semanas e meia de muito trabalho. O fato de o diretor desta vez contar com mais dinheiro - R$ 6 milhões, levantados pela produtora Vânia Catani, da Bananeira Filmes; o filme serás distribuído pela Imagem - não mudou seu método. A guerrilha é coisa do passado, mas Belmonte continua ensaiando com os atores e abre espaço para a contribuição que eles podem fazer. Além de Selton Mello e Milton Gonçalves, o elenco inclui Marcelo Grossi, frequente nos filmes do autor, e, como novidade, Grazi Massafera. Ela é a grande surpresa deste set. O repórter esperava o mulherão que fez a cabeça do público no Big Brother Brasil. Grazi chega meio menina, jeans, uma blusa discreta. Nada "fatal". Solta no shopping, ela não chamaria mais atenção do que outras garotas de sua idade.

Não é uma crítica nem uma tentativa de desdenhar da celebridade. Grazi admite que o cinema ainda é uma coisa nova para ela. "Só tinha feito uma participação pequena em Didi - O Caçador de Talentos, há cinco anos. Meu currículo se resumia a comerciais e novelas. Achei que estava na hora de tentar alguma coisa mais séria." Ela conheceu Belmonte através de seu amado Cauã (Reymond). "Na verdade, o Zé queria que eu fizesse o Se Nada Mais Der Certo com Cauã, mas não deu e foi melhor assim. Estava muito crua", ela faz sua autocrítica.

O set, neste dia particular da filmagem, localiza-se no alto da Gávea, num condomínio fechado. A casa fica num platô, com direito a piscina e um anexo todo de vidro, que a produção transformou na casa do bicheiro interpretado por Otávio Muller. Para todo lado que você olha, vê-se mata, floresta, menos uma fileira de barracos num morro ao fundo. É o reverso da Rocinha - a parte conhecida da favela fica do outro lado.

Belmonte trouxe amigos e colaboradores para Billi Pig. O fotógrafo Andre Lavenere, o diretor de arte Akira Goto e o maquiador Danilo Mazzuca. Como o primeiro, os outros dois permanecem em tempo integral no set. Belmonte define o plano e Akira Goto confere no visor se os objetos estão todos em cena. Cadê a Rosane Mulholland?, pergunta o repórter. A bela Rosane teve participações importantes em outros filmes de Belmonte. "A Rosane ficou fora, mas o filme é cheio de mulheres bonitas, além da Grazi. É o meu lado Walter Hugo Khouri", brinca o diretor, referindo-se ao autor paulista que filmava as mulheres como ninguém no cinema brasileiro, a começar pelas espetaculares Norma Bengell e Odete Lara de Noite Vazia (1964).

Billi Pig é sobre trio de trambiqueiros (Selton Mello, Grazi, que faz sua mulher, e Milton Gonçalves) que se une para aplicar um golpe no poderoso Otávio Muller. A filha dele está em coma e o "padre" Milton se oferece para fazer o milagre da ressurreição. "É de novo a minha fascinação pelos marginais, pelos sobreviventes", anuncia o diretor. Sem renunciar a ideias e conceitos, Belmonte tenta abrir seu cinema para um público maior. "O filme tem muito de chanchada, tem musical, que eu sempre quis fazer." Ele mostra, no laptop, uma das cenas musicais - com Grazi. Está caprichada. Billi Pig promete.

QUEM É

JOSÉ EDUARDO BELMONTE

CINEASTA

Nascido em São Paulo, em 1970, mas criado em Brasília, virou o mais brasiliense dos diretores. Seu cinema é de autor. Filmes - A Concepção, Meu Mundo em Perigo, Se Nada Mais Der Certo.

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