Bellow e a nova prosa americana

Tema da seção Revista das Revistas, publicação sobre letras americanas definia o autor de Herzog como símbolo de uma geração

LIVIO XAVIER, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2011 | 00h00

Não fosse compreensível a nota de otimismo oficial que reveste a apresentação do número III da revista Dialogo, da Embaixada dos EUA, bem se poderia pensar que o diretor Nathan Glick está arrombando portas abertas quando frisa: "O interesse estrangeiro pela literatura americana mudou não apenas de intensidade, mas também de carater". Pois é fato indiscutível a influência avassalante da literatura americana, pelo menos da ficção americana, na literatura mundial. O próprio sr. Glick no seu artigo "Cinquenta anos de ficção" com o qual abre a revista a colaboração especial alarga os limites dessa influência que assim abrangeria os primeiros livros de Hemingway, dos Passos e Faulkner. Mas pode-se pensar que o ascendente universal do romance americano se manifesta não em terrenos estritamente ligados à cronologia dos seus autores que chegaram à fama internacional, e sim como consequência direta desta. Não se trata de questão de lana caprina ou, como dizem os franceses mais galantemente, de "couper um cheveu em quatre". A falada e forçada influência manifestou-se e se manifesta antes em termos de temática que de técnica literária, o que deixa presumir seja menos questão de mera imitação que de contágio irremediável ou de comunicação historicamente necessária de culturas diversas.

Melhor que a crítica professoral ou jornalística (...), o escritor, se inteligente, percebe diretamente tôdas as implicações do problema. E" o caso de Saul Bellow, o afortunado autor de "Herzog", o livro representativo das mais recentes tendências psicológicas e morais na literatura de ficção americana. Nascido no Canadá, educado desde criança nos EUA, diploma em Chicago, escritor profissional, é já Saul Bellow um astro internacional ("The victim", "Dangling man", "The Adventures of Augie March", "Herzog" etc.), mas, apesar disso, a sua sensibilidade literária não está ainda embotada. Dialogo reproduz uma entrevista publicada na "Paris Review", e concedida a G. L. Harper, e não "conduzida"pelo jornalista como é a moda mais recente no Brasil.

Bellow considera (que horror !) o aparecimento do realismo no seculo XIX o fato mais importante da literatura moderna. Dreiser é para ele o representante maximo dessa força que parece tão natural como a que revela a leitura de Shakespeare ou Balzac. Dreiser é pesado e como pensador é medíocre, pode-se dizer. Mas não se trata disso, evidentemente. O fato é que Dreiser nos comove profundamente: os seus romances são arrancados à vida. Depois dele, há Hemingway, Faulkner e Fitzgerald. Mas prefere o terceiro. Pensa que Hemingway não é um grande romancista, e sim criador de um novo estilo literario que reflete um estilo de vida talvez preterito. (...)

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