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Bellocchio e as sutilezas do universo familiar

Um dos maiores de sua geração, o italiano Marco Bellocchio filma os próprios parentes em Irmãs Jamais

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2013 | 02h08

Diz o diretor Marco Bellocchio que Irmãs Jamais é "um filme por acaso". Não parece. Mas a observação procede. São necessárias duas palavras sobre seu processo de realização. Há muitos anos, Bellocchio comanda em sua terra natal, Bobbio, na província de Piacenza, o laboratório Fare Cinema (Fazer Cinema). Esses workshops têm lugar sempre durante o verão, como atividade de férias.

Bellocchio foi rodando os episódios tendo seus parentes como personagens: a filha menor, Elena, o filho Pier Giorgio, as irmãs Letizia e Maria Luisa. Também participam atores amigos, como Alba Rohrwacher, Donatella Finochiaro e Gianni Schicchi Gabrieli.

Há um aspecto fragmentário nos seis episódios, mas também fios que os mantêm unidos. A menina Elena vive com as tias, em Bobbio. A mãe da garota, Sara (Donatella Finocchiaro), tenta carreira de atriz profissional e está sempre em viagem. Aparece e desaparece. Até que, num dos episódios, resolve levar a menina para morar com ela, em Milão. Mas, para isso, precisa de dinheiro para alugar uma casa maior. O irmão, Giorgio (Pier Giorgio Bellocchio) vive em crise de vocação. Acha-se destinado às artes, mas é obrigado a sobreviver de formas diversas, às vezes confusas. Abre uma joalheria com a namorada, mas a coisa não vai adiante. Sempre necessitado de dinheiro, mete-se com tipos suspeitos, que não hesitam persegui-lo até o reduto, em Bobbio, para cobrar a dívida. As velhas tias, Letizia (Letizia Bellocchio) e Maria Luisa (Maria Luisa Bellocchio), solteironas, são o esteio da família.

Enfim, uma saga familiar, bastante real, bastante ficcional. Como disse Bellocchio, as pessoas interpretam a si mesmas, mas o fazem com um deslocamento ficcional em relação aos fatos efetivamente vividos. Sobra algo de real, um núcleo duro da narrativa: a homenagem que Bellocchio, um dos mais consagrados artistas italianos, faz às irmãs, que renunciaram à vida para servir de base à família. Não por acaso, ele chama a essas irmãs da renúncia de Mai (nunca, jamais).

Esse "fio profundo" , que une episódios em aparência desemparelhados, é a visão de Bellocchio sobre a família. Visão que evolui desde o cáustico primeiro filme, de Punhos Cerrados (1965) até este crítico, porém compreensivo, Irmãs Jamais (2008). É um signo de maturidade do artista. Não por acaso, alguns fotogramas de De Punhos Cerrados imiscuem-se entre as imagens modernas de Irmãs Jamais. Como se fossem comentários do passado intrometendo-se no presente, marcando dois registros diversos com relação à família. O jovem Bellocchio de 1965 tentava esmurrar. Era um raivoso. O Bellocchio maduro de 2008 busca compreender. É um sábio.

E há muito que compreender neste filme que ganha organicidade só a posteriori. Por exemplo, a dialética entre a pequena Itália do interior (Bobbio) e a cidade grande, Milão, com suas promessas e respectivos preços a pagar. Todos os provincianos buscam a metrópole, mas voltam à província como em busca de um abrigo indefinível. É como um útero. Mas lá também não podem ficar (são os casos de Sara e Giorgio), pois uma promessa (talvez ilusória) de vida maior os chama. Situam-se numa espécie de não lugar angustiante. Restam as tias, os chamados pilares do clã, com sua bondade, vidas restritas e a preocupação em aumentar a capela funerária dos Mai, para que, no futuro, não falte lugar para ninguém. Utopia da família unida, que permanece unida mesmo após a morte. Patético e comovente a um tempo.

Irmãs Jamais é cheio de sutilezas e pequenas surpresas, até no desfecho, poético e nada previsível. Bellocchio é autor de alguns dos raros grandes filmes italianos dos últimos anos, como Vincere, Bom Dia, Noite e A Bela Que Dorme (com estreia prometida para maio no Brasil). Filmes políticos, operísticos, profundos e duradouros na memória afetivo-intelectual do cinéfilo. Irmãs Jamais é uma breve experiência intimista, espécie de intermezzo numa carreira já longa e brilhante. Esse interlúdio familiar não é menos lúcido e emocionante que seus grandes filmes. Uma pequena obra-prima.

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