Belle & Sebastian, morno

Antiglamour e informalidade dos escoceses foram atropelados pelo tempo

Crítica: Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2010 | 00h00

Yasmin Medeiros, de Belém do Pará, estava nas últimas fileiras, a mais de 100 metros do palco do Via Funchal, e não botou fé: "Nunca vai chegar até aqui." Mas uma das duas bolas de futebol americano de plástico autografadas pelo grupo escocês Belle & Sebastian e arremessadas pelo vocalista Stuart Murdoch voou por sobre toda a plateia e veio cair caprichosamente nos braços de Yasmin (que virou celebridade instantânea lá na turma do fundão).

O alcance da música delicada e suave do Belle and Sebastian tem sido como a trajetória da bola de plástico: leve, flamboyant, atravessa já uma década e meia de fofura & dancinhas & quebras de protocolo na música pop. Não tem mais o mesmo frescor, no entanto.

O fôlego do grupo se mantém hoje por uma combinação de simpatia, coerência e bom gancho para hits. Pequenos truques de nightclub ajudam, como botar meia dúzia de fãs no palco para dançar junto com o bandleader - que ilude todo mundo, fazendo a plateia agir como se ele fosse um fã ordinário caído por acidente num palco à frente de 6 mil pessoas.

A banda abriu a noite pontualmente às 22h, com I Didn"t See It Coming, primeira música de seu novo disco, Write About Love, lançado este ano. O som não estava bem equalizado, e muitas sutilezas da formação da banda - como um quarteto de cordas à esquerda do combo - se perderam nas canções iniciais do set.

Murdoch continua adorado, com seu chapeuzinho de cambista de corridas de cavalos e sua performance doce, o ar levemente lunático pedindo colaborações da plateia. Torturou o seu violinista pedindo que ele traduzisse para o português o que dizia, e o pobre homem sabia ainda menos do que ele. O público aplaudiu e participou de todo o show, cantando loucamente. Ferveu nos hits, como Piazza, New York Catcher, Fox in the Snow (na qual ele jogou as bolas de football), I"m a Cuckoo, Another Sunny Day e, já no finalzinho, na elétrica Judy and the Dream of Horses.

A banda mostra que perdeu muito também com a saída, há 10 anos, da vocalista Isobel Campbell, que trilha brilhante carreira solo (tem um trabalho fantástico com Mark Lanegan). Antes, havia um núcleo de vozes femininas que equilibrava as ações e dava um colorido especial ao grupo. Agora, o B&S deve a dobradinha exclusivamente ao timing meio opaco da roliça Sarah Martin, que também toca violino. O show pega mais forte nas músicas mais animadinhas, como I Want the World to Stop (a versão british de Pare o Mundo que Eu Quero Descer, de Raul Seixas)

Em 2001, quando veio pela primeira vez ao Brasil, para o Free Jazz Festival, o pop desencanado, sem frescura, desopilado (o avesso do avesso do star system de então) fez escola. Era uma ousadia charmosa, gente como a gente tomando conta do palco, da noite, da música que ouvíamos - ninguém mais se importava em convencer milhões. Mas muita coisa aconteceu desde então, coisas como Peter, Bjorn and John, Bright Eyes, Kings of Convenience, Hot Chip e outras maravilhas que professam o mesmo credo. O Belle and Sebastian ficou meio tiozinho, já respeitavelmente grisalho, mas ainda é um tiozinho que comove no piquenique da família.Y

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.