Beleza juvenil, sempre tensa e indócil

O Despertar da Primavera realiza atualização inteligente dos conflitos da juventude do século 20

Crítica: Mariangela Alves de Lima, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2010 | 00h00

Foi tão radical e tão amplamente disseminada a reviravolta da moralidade sexual no decorrer do século 20 que deve ser espantoso para os adolescentes de hoje imaginar uma puberdade vivida sem a mínima noção das práticas reprodutivas da espécie humana. O estranhamento provocado pela situação histórica diferente é, no entanto, parte insignificante da composição de O Despertar da Primavera, peça musical com texto e letras de Steven Sater e música de Duncan Sheik. Inspirada na obra homônima de Frank Wedekind, a peça dos autores norte-americanos toma como ponto de referência a trama original e se afasta dela ao reduzir o papel da ideologia no conflito entre gerações.

Encenado pela primeira vez em Berlim no primeiro quinquênio do século 20, o texto de Wedekind é, na formalização e nos temas, um dos primeiros gestos explícitos de rebelião contra a repressão sexual da cultura europeia no fim do século 19. Além disso, por meio de recursos simbólicos que se assemelham a procedimentos da psicanálise, a peça prefigura terríveis consequências para as sociedades, cujo culto à razão implica o aniquilamento do prazer sensorial. A educação das personagens juvenis consiste em uma ginástica mental, cujo único propósito é a disciplina. Na sala de aula, a ocupação principal é o estudo "dos clássicos", enquanto o conhecimento de si, do outro e das circunstâncias são interditados pelos mestres e pais. Enfim, textos decorados em uma língua morta compõem uma litania ao fundo de experiências vitais cuja expressão é interditada.

Há um propósito ao mesmo tempo acusatório e instrutivo em uma narrativa que expõe o sadismo dos pais e mestres, o incesto, a homossexualidade e a gravidez prematura como ocorrências subterrâneas, experimentadas com uma intensidade dramática proporcional ao rigor com que se pretende domar a energia erótica. Em princípio, nada impede o teatro musical de adotar uma postura combativa ou explorar os recantos mais sinistros da psique coletiva. Seja em prosa ou verso, no entanto, a ótica deste século não pode ignorar que os bastiões da hipocrisia sexual foram atacados com inegável competência pela teoria freudiana, pela ciência e pelas práticas terapêuticas e pedagógicas derivadas.

Certamente, há outros sofrimentos reservados aos adolescentes de hoje, cuja intensidade se equivale ao das vítimas do puritanismo do século 19, mas o desenho de um paralelismo histórico exigiria um esforço de caracterização incompatível com a moldura do musical. Imagético, sensorial e ritmado pela percussão, o gênero é excelente veículo para teses e incitamentos de toda ordem, mas inadequado para ponderar diferenças e analogias entre dois períodos históricos.

O fulcro dramático do texto norte-americano é, talvez em razão da vivência explícita da sexualidade contemporânea, a celebração do ímpeto juvenil que, como onda, retorna a cada geração ansiando, além da gratificação amorosa, por horizontes mais amplos. Sentimentos à flor da pele e vigor físico são também dois componentes fundamentais nessa história recontada no século 21 para uma plateia que aprendeu de onde vêm os bebês quase ao mesmo tempo em que aprendia a falar.

Detalhes. Neste espetáculo dirigido por Charles Möeller, as ações são mais claras do que as palavras e é um defeito ponderável a sonorização que amplia volumes até tornar incompreensível boa parte das frases cantadas. Com esforço, é possível entender alguma coisa do que dizem as canções, mas há detalhes e nuances sufocados sob vibrações. Esse é um problema técnico incomum nas produções capitaneadas por Möeller e Cláudio Botelho e é pena, porque os musicais da dupla têm sido recriados em um português caprichado e sem pedantismo e um prazer suplementar do musical é a versificação talentosa de Botelho. É possível que o rock, acompanhado por guitarras e por arranjos vocais adequados para timbres agudos, seja mais estridente, mas essa é uma boa razão para diminuir o volume e caprichar na elocução.

Descontada a vontade de ouvir mais e melhor, o espetáculo é uma sensível e inteligente atualização do princípio vitalista que animou a vanguarda alemã do século passado. Energia física, entusiasmo, agilidade e expressão emotiva foram, sem dúvida, qualidades que presidiram a formação de um elenco quase tão jovem quanto as personagens de Wedekind. O desenho das cenas e a composição das personagens transformam essas qualidades dos intérpretes em estilo e o que se vê com maior nitidez sob o sofrimento é a beleza da juventude, uma espécie de beleza comovente, indócil, tensa como um arco.

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