Beleza cotidiana de Angola, em livro

Muito fácil é resumir Angola por suas tristes estatísticas, miséria, um dos maiores índices de mortalidade infantil do mundo, mais de 1 milhão de mortos em uma guerra civil que já dura mais de 25 anos e doenças que só vêm piorar o estado da já debilitada população... Difícil é ampliar um olhar sobre um povo, que todo dia enfrenta a batalha de tentar mudar o curso de sua história. E vence.Como diz o fotógrafo e publicitário Sérgio Guerra, para falar de Angola, é preciso conhecer Angola. "A dor do país é real, mas o que se diz não faz justiça aos que sofrem essa dor" diz ele, que há três anos tem morado mais lá do que em Salvador sua cidade. Entender Angola e recontá-la melhor para o mundo é o que Guerra tem feito nesse tempo e agora apresenta em Duas ou Três Coisas que Eu Vi em Angola (Maianga Produções Culturais, R$ 108), livro de fotografias que ele lança nesta segunda-feira na Fnac, às 19 horas.Mais que uma declaração de amor ao país, o livro faz parte de um trabalho mais amplo. Sócio da agência Link Comunicação e Propaganda, o fotógrafo foi um dos designados para criar um plano de comunicação no território angolano. Além de prestar assessoria de comunicação e marketing ao governo do país ele desenvolve o trabalho de reformulação e modernização da comunicação local, principalmente no Jornal de Angola, na Agência de Notícias, na Televisão Pública de Angola (TPA) e na Rádio Nacional. "Para realizar melhor meu trabalho, comecei a visitar todas as províncias do território e fui me apaixonando. Fotografar é a forma de expressar minha admiração pelo povo, que todos os dias, se reergue e constrói um novo país", conta.Ao folhear as páginas do impecável Duas ou Três Coisas..., descobre-se a verdadeira devoção do brasileiro a Angola. O colorido da natureza, a alegria espontânea das crianças, a beleza das mulheres, o futebol nosso de cada domingo o pôr do sol, a bela capital Luanda. Mas a guerra também está lá. Nos furos que coalham os muros das casas, nas armas obsoletas de uma guerra tão atual quanto a esperança dos soldados. Guerra não deixou de flagrar a relação da população com a ameaça de conflito. Crianças convivem "pacificamente" com as metralhadoras dos exércitos, há música nos acampamentos, mas também há mísseis e trincheiras. "É claro que a guerra existe, que a população vive sob a ameaça de conflitos, mas o país continua uma outra guerra, a de se reerguer, se reconstruir", afirma.Para o fotógrafo, a paz está próxima de ser finalmente definitiva. "Angola só tem 25 anos, é muito jovem. Conflitos são comuns; não há como exigir que o país seja igual a outros que possuem mais de 500 anos", diz. E completa: "A Unita, apesar de ainda ativa, está se enfraquecendo, novas eleições diretas serão realizadas em 2002, a tendência é de que a paz seja estabelecida", confia. Um dos países mais ricos em recursos naturais do continente, Angola continua sendo a única nação do sul da África não pacificada. Colônia portuguesa desde 1482, conquistou a independência em 1975, depois de enfrentar 14 anos de guerra. No mesmo ano, porém, a população se viu em meio a uma novo conflito. Dessa vez, civil. A Unita (União Nacional para a Independência Total de Angola) não aceitou ceder o poder ao MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola).Nos anos seguintes, o país foi um dos palcos mais explícitos da Guerra Fria. A Unita foi financiada, até 1991, pelos Estados Unidos e pela África do Sul do apartheid. Já o MLPA ganhou o apoio da antiga União Soviética e de Cuba. Como resultado, cerca de 10 milhões de minas terrestres foram espalhadas - mais de uma para cada habitante, levando ao maior saldo de multilados do mundo. Nos anos 90, mesmo após várias tentativas de acordos de paz, a Unita, liderada por Jonas Savimbi, recomeçou a guerrilha e ainda domina várias regiões.Segundo o fotógrafo, o preconceito é um dos principais inimigos de Angola. "Todos ficam muito tristes quando veêm um notíciário internacional que só mostra os problemas do país", afirma. "Não queremos escondê-los, mas mostrar o que de bom tem sido feito. Luanda, por exemplo, é uma capital em constante reconstrução; não há como caminhar por suas ruas e não se deparar com obras de melhoria; estamos fazendo várias campanhas de reeducação, conscientização da população", continua. "Tão falso quanto maquiar a guerra e a miséria é não mostrar a luta cotidiana para reconstruir o país."Até as crianças têm consciência do esteréotipo com que o país é visto pelo mundo. "Na TPA, fazemos uma revista semanal que mostra a vida cultural, esportiva e política do país. Recebemos muitas cartas. Uma me chamou atenção. Duas meninas pediam para que mostrássemos a campanha do time de basquete nacional no campeonato africano. Eles foram os melhores. Elas pediam para mostrar ao mundo o que Angola tem de bom. Quando até crianças pensam assim, é mais triste ainda ver o país como mero palco de calamidades", conta.O livro - Ressaltando o impacto das imagens, há trechos de poemas e textos de vários escritores escolhidos com cuidado. O poeta Antônio Risério é quem assina a seleção. E escalou Oswald de Andrade, Willian Blake, Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, Drummond, Camões e vários outros.A princípio, os textos não têm relação direta com cenas africanas. Mas foram bem colocados e mostram que a luta de Angola também é universal. Em meio à batalha por uma vida melhor as crianças são como as de qualquer outro país, surpreendem-se com a vida. Outro complemento ao livro e ao trabalho de Guerra é o site www.angolaimagens.com.br, que o publicitário criou em parceria com J.R. Duran, Luciano Andrade e outros amigos. Além de conter mais de 650 fotos, traz vídeos, informações gerais sobre a política, a cultura e a vida no país. "Essa é outra forma de mostrar para o mundo que muitas coisas boas têm sido produzidas em Angola."Como não poderia deixar de ser, Guerra pretende lançar seu livro e uma exposição em Luanda e Lisboa, em abril. Em março lança Duas ou Três Coisas em Brasília e promove também debates sobre a vida no país. Rio de Janeiro, Salvador e outras capitais brasileiras também serão apresentadas ao livro.A agenda é longa e satisfaz o maior desejo de Guerra: continuar mostrando o valor de um povo que não permite que a guerra lhe roube o encanto pela vida, diariamente reinventada em pleno campo de batalha.

Agencia Estado,

22 de janeiro de 2001 | 00h01

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