Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

Belas Artes, o rolo final?

Mais um capítulo na trajetória atribulada de uma das 'salas de rua' mais tradicionais de São Paulo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2011 | 00h00

Há um clima de apreensão entre os frequentadores do Cine Belas Artes. Muitos deles estão até mesmo se organizando para fazer uma passeata de protesto contra o fechamento do conjunto de salas na Consolação, quase esquina da Paulista. É um dos endereços famosos de São Paulo e, para os cinéfilos, um dos mais tradicionais (o mais?). Embora a história seja muito mais antiga - ali já funcionava o Cine Trianon -, o Belas Artes surgiu em 1967, quando a Companhia Serrador fez uma parceria com a Sociedade Amigos da Cinemateca, prometendo "espetáculo, cultura e polêmica".

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A primeira divisão em salas começou em 1971 - formaram-se três e foi na maior que André Sturm assistiu a Meu Tio, de Jaques Tati, levado por seus pais. Foi um caso de amor à primeira vista. Por M. Hulot, o personagem emblemático do cômico francês, e pelo próprio Belas Artes, do qual, em 2003, ele se tornou administrador e programador. Nesses sete anos, Sturm realizou seu sonho de cinéfilo - desenvolveu uma programação de qualidade, privilegiando o cinema de arte. Ele tem estado na sua mira desde que Sturm, na cara e na coragem, fundou a distribuidora Pandora, cujo logo é o perfil da lendária Louise Brooks no clássico A Caixa de Pandora, de G. W. Pabst, de 1928.

Ao longo desses quase 44 anos (desde 1967), o Belas Artes passou por muitos sobressaltos, inclusive o incêndio criminoso que, em 1982, destruiu as três salas. No ano seguinte, um cineasta empreendedor - o mais brasileiro dos franceses, Jean-Gabriel Albicocco -, reinaugurou o Belas Artes com mais quatro salas. Não durou muito - o Departamento de Controle do Uso de Imóveis (Contru) interditou o prédio e, em nome da segurança, exigiu que fossem reduzidos os assentos. O Belas Artes reabriu com a capacidade que mantém até hoje - 978 poltronas em seis salas.

A grande crise começou em meados do ano passado, quando o Belas Artes perdeu o patrocínio. André Sturm foi para a mídia, clamou por um patrocinador. Em julho, preocupado com as repercussões do caso, tratou de tranquilizar o proprietário do prédio, Flávio Maluf (nenhum parentesco com o político Paulo Maluf). Disse que estava acertando nova parceria e cedeu aos argumentos do dono, que lhe fez ver que o aluguel (o contrato se encerra em 20 de fevereiro) estaria defasado. Não era verdade, segundo Sturm, mas ele se comprometeu a aumentar o valor e, inclusive, a antecipar o pagamento, tão logo fechasse parcerias. Surgiram duas possibilidades, mas só uma vingou. Em dezembro, às vésperas de assinar o contrato, Sturm foi notificado pelo advogado de Maluf de que ele não estava mais interessado no acordo. Logo veio a notícia do despejo iminente.

Em casa de Maluf, a informação é de que ele viajou para lugar ignorado. ???Sturm acredita que não há mais nada a fazer. Como assessor do secretário de Estado da Cultura, acha que não pode misturar as coisas. "Os dois secretários, tanto o Municipal quanto o Estadual, foram solidários, mas o conjunto de salas é uma atividade privada. Uma possível solução seria, talvez, o tombamento das salas, mas o Condephaat é ligado à secretaria e seria antiético advogar em meu favor." Não adianta observar que o poder público costuma intervir em favor de entidades culturais em dificuldades, bastando citar a ajuda do Ministério de Cultura à Bienal de São Paulo, que também é uma fundação privada.

Sturm pode reconhecer a derrota nesta batalha, mas não desistiu da guerra. Ele mantém seu novo patrocinador como ás na manga - recusa-se a divulgar, por enquanto - e busca outro local. Há tempos já havia se interessado pelo antigo Ipiranga, no Centro da cidade (em frente do PlayArte Marabá), mas o prédio é "problemático", como diz. Mais interessante seria o antigo Cine Marrocos, atrás do Teatro Municipal, que está em bom estado, mas a Prefeitura tem planos para as salas, vinculadas ao novo espaço, em reformulação, da Praça das Artes. "O Belas Artes não é só um espaço físico, por mais que aquele prédio tenha história. É um estado de espírito, como sabem os frequentadores." Por isso mesmo, ele prepara uma grande celebração para encerrar as atividades, no dia 27.

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