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Beijos meia-boca

Estejamos, pois, preparados para novidades anormais

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

28 de julho de 2020 | 03h00

Não vejo a hora, eu e a humanidade inteira, de que a pandemia acabe, ou ao menos afrouxe, e nos permita pôr os pés na rua. 

Cada um já sabe o que fará primeiro. De minha parte, está decidido: vou mergulhar numa das salas – de rua, não de shopping center – onde, há quatro meses, o cinema ficou mudo, cego e surdo. Porque, convenhamos, uma coisa é ver um filme, e outra é ver um filme num cinema. Nada contra Netflix e similares, com direito a pijama e pausa para banheiro ou geladeira. É que para mim o prazer, nesse departamento, não dispensa um excitante ritual de aprontar-se, sair de casa, comprar ingresso e escolher poltrona num espaço onde o acaso providenciou uma inédita e irrepetível composição humana, com cada qual à espera de que a luz se apague e se acenda a fantasia.

Dito isso, já não tenho idade para imaginar que no começo será tudo como dantes, o pessoal acomodado em poltronas enfileiradas, cotovelos disputando espaço no estreito apoio, como em classe econômica de avião. Com exceção, naturalmente, do que acontece em cinema de shopping, onde poltronas diferenciadas, aptas a acolher a mais hipopotâmica das criaturas, dão a impressão de terem sido concebidas mais para propiciar o sono do que para a fruição de uma boa história. 

Espero que não se trate do novo normal de que tanto se fala, algo que viria para ficar, mas não tenho ilusões de que no início será tudo diferente, e até bizarro: eu aqui, você a dois ou três assentos de distância, como determina a etiqueta sanitária. 

Estejamos, pois, preparados para novidades anormais. 

Não havendo mais a vizinha de poltrona a quem manusear, o bolinador, esse parasita cujo hábitat é o escurinho do cinema, terá de recorrer a mão mecânica na ponta de algo como um pau de selfie, única forma de alcançar redondidades carnais a metro e meio de distância. 

Pernas solertemente acostumadas a avançar em direção a outras para fins libidinais teriam que ser agora as do Pernalonga – inesquecível personagem da infância cinematográfica de todos nós, e que, aliás, chegou por estes dias aos 80 anos, e em grande forma, sem ferrugem nas juntas nem implantes dentários para roer cenoura.

Mesmo o beijo entre namorados, como ficará ele, nestes tempos que nos impuseram essa espécie de, com o perdão da imagem, preservativo facial, a máscara anticovid, por detrás da qual surradas juras de amor serão sussurradas? 

Sim, pois parece decidido que também nas salas de espetáculos usaremos máscaras, as quais, subsidiariamente, servirão para filtrar o miasma gordurento disso que há muito se entranhou no cardápio de uma sessão de cinema: a pipoca. 

Haverá pipoca nessa nova fase? Se houver, como conciliá-la com o obstáculo têxtil da máscara? Paciência: que ela, interminavelmente removida e recolocada, sirva também para abafar o crunch-crunch da mastigação. Quanto ao barulho de embalagens de papel que mãos escarafuncham na catação de pipoca, nada a fazer. Haja sacos! 

Sirva a máscara também para abafar outra indefectível trilha sonora nas salas de cinema: o pipocar de tosses – as mesmas que nas salas de concerto compõem aleatória peça à parte, a Sinfonia nº 1 para Pigarro e Tosse, de Valda e Benalet.

*

Nada disso, a pipoca e a tosse, nos incomodava quando, na infância, papai & mamãe nos levavam ao cinema para ver um Tom & Jerry. Na calçada e depois na sala, antes de começar a sessão, circulavam baleiros e baleiras, com as suas... que nome tinha aquilo?, bandejas penduradas na altura dos quadris, fartas em jujuba, drops Dulcora, chocolate Gardano e tentações quetais. Em algum momento veio, grande sensação, a bala Chita, em cuja embalagem um chimpanzé escancarava as mandíbulas. Ganharia prêmio, dizia-se, quem achasse macaco de boca fechada. Não valia, claro, garimpar na hora de comprar. Acho que foi minha primeira fake news. 

Não me lembro de muito adulto em nossas matinês – este era o nome do programa –, pois onde me criei era costume os pais depositarem os filhotes na porta do cinema, com mil recomendações e dinheirinho para as balas, e esperá-los na saída, saciados de cinema e guloseimas (meu pai adorava essa palavra). Que diabo faziam eles entre uma coisa e outra? 

A farra da plateia começava na imitação dos rugidos do leão da Metro, ou de um “xô!” de muitas vozes para enxotar o urubu da Condor Filmes, encarapitado numa pedra, até que ele decolasse e descrevesse um voo sinuoso, para lá no fundo, num último volteio, diluir-se na palavra “apresenta”. 

Havia também, no fundo da infância belo-horizontina, o Cine Grátis, programa que a prefeitura promovia a céu aberto em alguns pontos da cidade, para alegria dos moradores das proximidades, que compareciam munidos de cadeira ou tamborete. 

Nas minhas vizinhanças, havia algo ainda mais sensacional: festa de aniversário com desenhos animados. Que eu saiba, só acontecia na casa da dona Tereza e do dr. Gerson – amigo e ex-treinador de basquete de meu pai no Minas Tênis Clube, irmão do Fernando Sabino e, como ele, cheio de americanidades. Apaixonado pelo futebol, o dr. Gerson cobriu todas as Copas do Mundo a partir de 1938, e se preparava para mais uma quando morreu, 60 anos depois. Para mim, sua melhor iniciativa ficou sendo o aniversário com cinema.

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