Beijos e paranoia

O grande tema do escritor albanês Ismail Kadaré tem sido, desde o começo de sua carreira, em 1963, a trágica ressonância do passado no presente. Desse trânsito temporal vivem as ditaduras, satirizadas impiedosamente na literatura desse eterno candidato ao Nobel - e não poderia ser diferente em seu mais recente livro lançado no Brasil, O Acidente. Se a sua obra mais conhecida aqui, Abril Despedaçado, adaptada para o cinema por Walter Salles, mostra como uma lei ancestral - a do olho por olho - ainda dita as regras nas montanhas da Albânia, O Acidente é a prova vigorosa de que os habitantes de seu país, mesmo fora dele, ainda vivem imersos na paranoia. No entanto, trata-se, antes de tudo, de um livro sobre o amor, uma novidade para quem escreveu tanto alegorias irônicas sobre a megalomania do ditador Enver Hoxha (A Pirâmide) como parábolas amargas sobre o delírio do totalitarismo (O Palácio dos Sonhos, sua obra-prima).

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2010 | 00h00

No primeiro, Quéops serve para criticar a construção de um museu, em 1988, com a mesma forma de pirâmide em homenagem aos 80 anos de nascimento de Hosha (então morto havia três anos). Já O Palácio dos Sonhos, publicado em 1981, usa a figura de um controlador de sonhos como metáfora dos serviços secretos que mantêm as tiranias vigiando rebeldes como Kadaré, exilado na França desde outubro de 1990. O Acidente vai um pouco nessa linha. Por que investigadores albaneses, testemunhas de assassinatos, bombardeios e limpezas étnicas estariam, afinal, tão interessados num acidente automobilístico rotineiro que atirou para fora de um táxi um casal que tentava se beijar?

Kadaré prende o leitor da primeira à última linha para revelar o mistério desse suspeito acidente envolvendo um analista, colaborador do Conselho da Europa sobre questões dos Bálcãs Ocidentais, e uma estagiária do Instituto Arqueológico de Viena, ambos albaneses. Se o relatório da perícia técnica eliminara a hipótese de sabotagem, o que de fato teria acontecido no caminho para o aeroporto de Viena? É o que os serviços secretos da Sérvia e da Albânia querem saber. Não poderia esse beijo, a exemplo do célebre filme de Antonioni (Blow Up) esconder uma história sórdida? O interesse do serviço secreto servo-montenegrino não estaria na ligação do analista com dissidentes defensores dos direitos humanos moradores em Estrasburgo e Bruxelas?

O truque narrativo de Kadaré consiste justamente em interrogar o leitor sobre questões que afligem o escritor. Por que o mundo se recusa a uma revisão dos acontecimentos que conduziram à guerra dos Bálcãs, arrasando corações e mentes? O que a tentativa de selar um beijo antes da morte esconde? Para desviar o leitor da rota, o ficcionista ainda inventa um terceiro personagem, a pianista Liza Blumberg, tornando a trama mais tensa. Amante de Rovena, a estagiária morta, Liza teria motivos suficientes para desconfiar do analista Bessford Y., considerado um sujeito nocivo à Iugoslávia. Todos, enfim, são vítimas nessa rede paranoica criada pela vigilância do Estado, que se contrapõe à liberdade do indivíduo. Como se sabe, o próprio Kadaré buscou asilo político na França após receber ameaças do regime comunista albanês, antes de seu colapso. Nada indica que deixou de ser uma figura incômoda para um país ainda isolado e dominado pelo crime organizado.

Embora se discuta se Kadaré foi dissidente ou conformista durante a ditadura, não há razão para duvidar de sua honestidade literária. Apóstolo da liberdade, a prova maior dessa vocação antiautoritária é justamente Abril Despedaçado, que Salles adaptou para o Nordeste brasileiro - região marcada pelo poder feudal dos coronéis. No livro, Kadaré promove o encontro, ainda que passageiro, entre personagens que jamais teriam seus caminhos cruzados numa região marcada por preconceitos e superstições - o da mulher de um escritor e um montanhês ignorante, encarregado de vingar a morte do irmão pelo clã inimigo. No filme, Salles transforma-a numa artista de circo mambembe, signo da independência moral garantida pela ausência de vínculos com a sociedade constituída. Já no recente O Acidente, o amor pode assumir uma faceta perversa, espelhando a sociedade albanesa no que ela tem de pior: a desconfiança no outro.

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