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Beijo racionado

Foi-se o tempo em que, em BH, você ganhava três beijos. Hoje ganha um, e olhe lá

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

31 Outubro 2017 | 03h00

Devo reconhecer: Belo Horizonte melhorou muito depois que saí de lá, faz quase meio século. Tanto é verdade que, tendo partido com a mala cheia de ressentimentos, hoje é com prazer que volto à cidade onde nasci, na qual seguem vivendo meus 8 irmãos e irmãs, respectivos cônjuges e extensa sobrinhada. É lá que vive, também, o cinquentenário time dos que considero, sem desdouro de outros, meus amigos fundamentais.

Mas vamos ao que aqui interessa, a Belo Horizonte de hoje, cidade de prancheta, tirada do nada, prestes a completar (em 12 de dezembro) 120 anos existência, à qual daqui a pouco estarei chegando para comemorar, neste dia 31, os 115 anos de nascimento de Carlos Drummond de Andrade.

Nenhum vestígio, evidentemente, daquela placidez desértica que deu ao visitante Monteiro Lobato, um século atrás, a impressão de ter caído num lugar onde as raras pessoas nas ruas ali estavam no papel de transeuntes. Joaquim Nabuco desembarcou em setembro de 1906 para beijar a mão de Afonso Pena, recém-eleito presidente da República – e, quando o carro que o levava rumo ao Palácio da Liberdade cruzou a Praça 7, ainda 12 de Outubro mas já umbigo da capital mineira, cometeu gafe histórica: “Para que lado fica a cidade?”

Pouco resta da Belo Horizonte que Drummond tanto amou nos seus 20 anos, superpostos aos 20 do século 20, “lugar de ler os clássicos e amar as artes novas”, e que, cinco décadas mais tarde, ele veio a lastimar ao ponto de lhe dedicar os amargores do poema Triste Horizonte. Mas subsistem, felizmente, vestígios da cidade onde o poeta viveu dos 17 aos quase 32, e à qual voltou pela última vez em 1968. Para não falar de belezuras mais recentes que ele, por certo, haveria de curtir.

Continua de pé a estação ferroviária, restaurada e bela, e acolhe hoje um trem danad’bom, sô, o Museu de Artes e Ofícios. Nas imediações, nunca deixo de dar uma espiada no viaduto de Santa Teresa, não mais o colosso que foi ao ser inaugurado, em 1929, mas ainda impávido. Sua memória tem como valor agregado o fato de que Drummond, já nem tão garoto – andava pelos 30 anos –, lançou, sem essa pretensão, a moda de caminhar pelos arcos do viaduto, quase 20 metros acima de uma linha de trem, numa tentativa confessa de restaurar o romantismo.

Olhe para esses arcos e tente ver lá no topo não apenas nosso maior poeta como aqueles que buscaram imitá-lo, consolidando assim um ritual de admissão no mundo das letras. Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e todo um vasto etcetera. (Se eu subi? Não dei conta – e também por isso não me tornei, como esse pessoal, um grande escritor). Com todo aquele trânsito aéreo, é de espantar que nenhum escriba tenha despencado sobre a via férrea, não se sabendo se isso, para a literatura, foi bom ou foi ruim.

A Praça da Liberdade, onde a turma de Sabino se reunia para “puxar angústia”, como se lê no romance O Encontro Marcado, se acha transformada num conglomerado de centros culturais, nos prédios restaurados das antigas secretarias de Estado. Já que estamos aqui: o famoso quarteto de escritores de que falei, chamado por um deles (Otto) de “cavaleiros de um íntimo apocalipse”, habita agora um canto da praça, na entrada da biblioteca pública, sob a forma de estátuas, a poucos metros de onde está, também bronzeado, o contista Murilo Rubião.

A propósito: repare na fartura de escribas que literalmente pegaram um bronze em Belo Horizonte. Drummond e Pedro Nava papeiam numa calçada da rua Goiás, no Centro da cidade. Na Savassi, a poeta Henriqueta Lisboa e o ficcionista Roberto Drummond também se imobilizam em stand-ups metálicos, quase tão brilhantes quanto foram em vida, de tanto serem apalpados.

Ainda na Praça da Liberdade, deixe pender o queixo à vista das sinuosidades do edifício, hoje um tanto maltratado, que leva o nome de quem o desenhou, Oscar Niemeyer. Por falar no arquiteto, e sem ter que ir muito longe: vale uma espiada o Colégio Estadual, conjunto arquitetônico que, por iniciativa do governador JK, Oscar espetou num cocuruto do bairro de Santo Antônio. Não deveria ter muros, e no começo não teve – mais uma razão de assombro e apelo à liberdade para este ex-menino quando lá cheguei, aos 11 anos, naquele março de 1956 em que se deu a inauguração. Cada bloco do campus é figuração de um objeto escolar. A caixa d’água, um giz apoiado na base menor. A ousadia maior é o auditório, em forma de mata-borrão antigo, daqueles de vaivém.

Vamos dar por sugeridas, por obviamente óbvias, as revolucionárias travessuras niemeyerianas fincadas na Pampulha – também por iniciativa de Juscelino, então prefeito –, joias como a igrejinha abaulada que alguém, furtando a Paul Claudel, chamou de “hangar de Deus” e onde, por ter sido projetada por um comunista e decorada por outro, Portinari, o arcebispo Antônio dos Santos Cabral não deixou rezar missa por longos 14 anos.

Não traz assinatura de Niemeyer, mas não é menos recomendável a recente Sala Minas Gerais, ninho da Filarmônica estadual, em cujo interior, de impecável acústica, redondidades arquitetônicas sugerem, apropriadamente, as curvas de uma orelha.

Comecei este papo, que urge terminar, admitindo que minha cidade melhorou bastante desde que de lá saí. Não é bem assim. Perdas houve, inclusive no que se refere ao patrimônio imaterial. Quando me mandei, por exemplo, usava-se dar dois beijos. Como visitante, vivi a fase em que eram três (nenhum deles, hélas!, no centro do alvo). Ultimamente, porém, encontro a cota reduzida a um solitário beijo. Em tempos de ajuste fiscal, fique meu protesto contra esse inaceitável ajuste oscular.

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