Beethoven um ídolo americano

Obra discute como o compositor se tornou a única referência erudita

Allan Kozinn, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2011 | 03h07

A acreditar na mitologia sobre Beethoven, baseada principal mente em suas cartas e nos relatos de pessoas de seu círculo mais íntimo, ele tinha consciência inabalável de sua importância. Ao contrário de Mozart e de Haydn, ele se recusava a curvar-se perante a nobreza, afirmando que o valor de um compositor é maior do que o de um príncipe. E embora tivesse patronos entre os aristocratas, reverenciava Napoleão, inimigo figadal destes, ao qual dedicou sua Terceira Sinfonia, a Eroica, mas retirou a dedicatória quando Napoleão se coroou imperador.

Beethoven foi provavelmente a pessoa que a história nos transmitiu: o gênio surdo atormentado, mas também uma força da natureza cuja irritabilidade e personalidade desagradável as pessoas toleravam por respeito à sua grandiosidade. Em sua música, ele brincou com as convenções e não se abalou quando obras como a Eroica foram criticadas. Mas isso não é nada diante do respeito que conquistou na cultura americana, até mesmo na popular.

Michael Broyles destaca em seu livro Beethoven in America (Indiana University Press), que todo mundo praticamente conhece o nome de Beethoven, embora não necessariamente sua música. Professor de música na Universidade do Estado da Flórida, Broyles afirma que a primeira interpretação de uma de suas obras nos EUA se deu em 1805. "Desde então, os americanos interpretaram Beethoven como acharam mais conveniente."

A primeira parte do livro examina o fascínio dos EUA por Beethoven no século 19 e no começo do 20 e mostra como o compositor se tornou um herói da cultura. Broyles cita ainda suas frequentes aparições no cinema e até mesmo na música pop, como Roll Over Beethoven, de Chuck Berry, depois sucesso dos Beatles.

Mas para o escritor a universalidade de Beethoven é em certo sentido uma força que se apagou. Somente algumas peças - Quinta e a Nona Sinfonias, a Sonata ao Luar, a insignificante Pour Elise - são ouvidas continuamente nos filmes na televisão e na música pop.

Portanto, como seu nome é conhecido de todos, tornou-se a única coisa que eles conhecem a respeito de música clássica. Impossível dizer se Beethoven teria achado isso divertido ou irritante. Mas será que isso é realmente algo a se comemorar? /  THE NEW YORK TIMES  

Tradução Anna Capovilla

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