Beethoven subversivo

Com competência, Trio Zimmermann capta em CD as mudanças estilísticas do mestre

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2012 | 03h10

Beethoven parece jamais ter brincado em serviço. Já começou sua carreira de compositor, recém-chegado a Viena, em 1794, quebrando regras. Tinha 24 anos. O primeiro gênero que subverteu foi o da música de câmara. Mais precisamente o dos trios de cordas, até então tidos como descompromissados, feitos em geral com dois objetivos: ou para funcionar como trilha sonora agradável para conversas nos salões da nobreza local; ou como meros exercícios para os alunos.

De fato, seu primeiro trio para violino, viola e violoncelo, opus 3, apenas deglute os Divertimentos de Mozart; e a Serenata opus 8 ainda respira o ar do entretenimento. Naquele mesmo ano, porém, Beethoven começou seu opus 9 - três trios que lhe tomaram dois anos de trabalho e rompem os parâmetros do gênero. Ele os transforma em laboratório para seus primeiros seis quartetos de cordas, o opus 18, que ele escreveria em seguida, entre 1799 e 1800.

Um sinal disso é que, em vez de se estruturarem como suítes com movimentos de danças variadas, os três possuem quatro movimentos alternando lento-rápido-lento e com direito a um scherzo (em dois deles) e a um minueto (em um). Igualzinho a uma sinfonia de Haydn ou Mozart. A novidade era tamanha, a ponto de ter sido ressaltada por um jornal vienense ao anunciar sua publicação.

Muitos violinistas, violistas e violoncelistas notáveis trataram de registrá-los em gravações. Mas há várias decepcionantes. Como, por exemplo, a que reúne Anne-Sophie Mutter, Bruno Giuranna e Mstislav Rostropovich, de 1988. Por outro lado, acometidos da síndrome das integrais, gravam dois CDs, incluindo o trio opus 3 e a Serenata, de parco interesse.

Por isso, o CD recentemente lançado no mercado internacional pela BIS com o Trio Zimmermann (Frank Peter Zimmermann ao violino, Antoine Tamestit à viola e Christian Poltéra ao violoncelo) acerta duplamente. Primeiro, ao optar por um CD só, dedicado aos três trios opus 9, que de fato valem a pena; e, em segundo lugar, ao promover uma interpretação que combina homogeneidade estilística entre seus integrantes com competência e raro nível de comprometimento.

Zimmermann, Tamestit e Poltéra ressaltam, em suas leituras, a sensação de que estamos ouvindo e eles tocando pela primeira vez as novidades que Beethoven introduziu nessas obras.

Há pesquisadores que aventam a hipótese de Beethoven, em sua estreia como compositor camerístico, ter fugido deliberadamente da fórmula quarteto de cordas para evitar comparações com Haydn e Mozart. De fato, o conde Apponyi encomendou-lhe um quarteto de cordas em 1795 e o que criou foi o primeiro trio opus 3.

Intrigas à parte, para comungar a atmosfera de "descoberta" que estes excepcionais músicos estabelecem em suas performances, é melhor você começar a ouvir o CD pelo terceiro trio, curiosamente em dó menor, a mesma tonalidade de várias obras decisivas posteriores (como a Quinta Sinfonia e a derradeira das 32 sonatas para piano, a magnificente opus 111). Este, de 1798, já pode ser qualificado como pequena obra-prima do jovem Beethoven. O primeiro movimento - um Allegro con Spirito - começa com um tema de quatro notas descendentes. O scherzo Allegro molto vivace em 6/8, escreve Horst Scholz no ótimo texto do folheto do CD, deve ter influenciado Mendelssohn em seus fogoso scherzi, 30 anos depois.

O CD pode ser baixado no site www.classicsonline.com por R$ 9,99 e também pelo iTunes por preço semelhante. A diferença é que no classicsonline você também baixa o folheto, na íntegra.

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