''Beethoven substitui qualquer religião''

''Beethoven substitui qualquer religião''

Para Maria João Pires, voltar à obra do compositor é sempre fundamental

Entrevista com

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2010 | 00h00

Em um quarto de sua casa, o "único com ar condicionado", Maria João Pires mantém o piano e uma estante de partituras. "Não gosto do clima artificial, mas aqui é necessário por conta do piano, que sofre demais com o calor", ela explica. Na parede, um retrato autografado do pianista russo Sviatoslav Richter e fotos ao lado do maestro italiano Claudio Abbado e do violinista francês Augustin Dumay. "A vida do músico é feita de parcerias. Nós construímos algo juntos aos poucos e o diálogo é sempre fundamental."

Abbado, com quem ela gravou concertos de Mozart e Schumann, é um amigo querido, "mas daqueles que nunca se veem". "Raramente nos encontramos, não ligamos um para o outro. Mas, quando estamos juntos, é especial. O primeiro concerto foi há 25 anos, nos conhecemos em Viena. E ele agora quer gravar um novo disco." O repertório? "Ele gostaria de fazer outros concertos de Mozart", diz ela, dando a entender que tinha outras ideias em mente. "Sim, é verdade, mas se ele prefere os concertos de Mozart, está ótimo para mim. É engraçado como com ele eu sinto que o melhor para mim é sempre aceitar suas sugestões."

Ela encerrou o contrato com o selo Deutsche Grammophon porque deseja "ficar livre para gravar sem pressões", embora em condições especiais, como a parceria com Abbado, aceite voltar ao estúdio. Apaixonada pela música brasileira - "Minha juventude foi embalada pela bossa nova e cheguei a ver Vinicius ao vivo duas vezes" -, ela conta que há alguns anos quis realizar um sonho e gravar com Caetano Veloso e Maria Bethânia. "Ele logo disse que não estava interessado. Ela até se interessou, mas depois o projeto não andou. Eles devem ter alguma razão, mas claro que não iam dizer para mim", lembra, divertindo-se.

Amanhã, na Sala São Paulo, vai interpretar Chopin. Ela ri quando ouve a declaração do colega Nelson Freire, para quem abandonar o piano seria difícil, pois o impediria de tocar a obra do compositor polonês. "Ele tem razão, afinal, Chopin foi pianista e lida com o instrumento de maneira muito especial." Sua obra, assim como a de Schumann, Mozart e Beethoven formam a base de seu repertório, desde o início da carreira. "Há um limite físico, minhas mãos são pequenas e portanto há uma enorme quantidade de peças que não posso tocar. Mas esse limite não me incomoda, até me agrada, pois me permite voltar sempre a um deles e redescobri-lo a todo instante."

Graça. Entre esses compositores, porém, lugar especial está reservado a Beethoven. "Ele é fundamental para qualquer músico. E para qualquer pessoa. Foi um iluminado, um mensageiro que trouxe algo à humanidade, tocado por uma graça. Ele fala de tudo em suas obras, de disciplina, de desprendimento. O estudo de Beethoven substitui qualquer moral, qualquer religião. Não tenho necessidade de tocar Mozart, posso ficar anos sem ele. Mas não me afasto nunca de Beethoven." Ela gostaria de ter mais tempo para estudar algumas obras, como sua Sonata Op. 111. "Mas não dá. Para encarar uma peça assim, é preciso se afastar dos concertos, dos recitais. Seria bom poder tirar períodos sabáticos a cada cinco anos, só para estudar, mas estou velha para isso, o melhor agora é me aposentar de vez."

Sentada ao piano, Maria João define o trabalho do intérprete como a obrigação de "fazer chegar ao público um momento de comunhão com a música, com algo que pode ser Deus, o universo, um milagre, não importa o nome que se dê". Às vésperas de embarcar para São Paulo, ela pergunta, enquanto é fotografada, sobre o litoral paulista e quer saber se ainda é possível ver trechos de Mata Atlântica nas proximidades da cidade. "Seria interessante, mas não sei se vai dar tempo." Com as fotos feitas, acompanha repórter e fotógrafo até a porta de casa. "Preciso servir o almoço das crianças, você entendem?" À porta, recomenda: "A praia fica aqui do lado, vale a pena dar uma olhada." E se despede com mais um sorriso.

Admiradores célebres

RICARDO CASTRO

PIANISTA

"O tempo que passei em Belgais com Maria João Pires mudou minha vida e a relação com a música."

JOSÉ SARAMAGO

ESCRITOR

"Suas mão estão cheias de música, de humanidade, de enorme beleza."

RONALDO MIRANDA

COMPOSITOR

"Quem quer entender as sonatas de Mozart deve ouvir suas leituras."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.