Beethoven e o rico universo de Isserlis

Não sei se o restante do infelizmente pequeno público que foi à Sala São Paulo anteontem teve o mesmo sentimento. Mas foi avassalador o modo como a terceira sonata para violoncelo e piano de Beethoven dominou corações e mentes de todos os presentes, no fim do concerto. Por dois motivos: primeiro, a interpretação entusiasmante do violoncelista Steven Isserlis e da pianista Connie Shih. O toque dele é tão firme e resoluto, ressaltando cada contraste dinâmico, que acaba empurrando a pianista para um toque que exagera a dinâmica, soando várias vezes martelato demais.

O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2012 | 03h09

Em situação de concerto, tais exageros arrebatam o público. Numa gravação, soariam excessivos. Falou mais alto, porém, a imensa qualidade desta obra-prima escrita em 1808, que ainda consegue nos deixar em estado de graça, impactados, a cada nova audição. Este é um dos sinais que emitem as obras-primas atemporais.

Beethoven emancipou o violoncelo, sabe-se. Lewis Lockwood, em seu formidável livro sobre o compositor, disponível em tradução brasileira, acentua que "as soluções para as questões de escala, sonoridade relativa e equilíbrio entre os dois instrumentos aparecem como realização tão importante quanto a originalidade e qualidade das ideias puramente musicais". Naquele momento, Beethoven pesquisava relações sonoras entre os dois instrumentos.

Isserlis, instrumentista plenamente amadurecido, deu-nos uma amostra de seu rico universo artístico na primeira parte. Funcionaram como aquecimento as 12 singelas variações de Beethoven sobre a conhecida ária "Ein Mädchen oder Weibchen" de Papageno, na Flauta Mágica de Mozart. A raramente tocada sonata n.º 1 de Camille Saint-Saëns, escrita em 1872 pelo compositor que por sete décadas dominou a vida musical francesa e foi chamado de "Beethoven francês", certamente não merece tal marginalidade.

Os destaques ficaram com o Andante tranquillo sostenuto central, movimento que nasceu como improviso de Saint-Saëns ao órgão de uma igreja parisiense, e o turbulento e difícil Allegro moderato final. Em ambos, Isserlis demonstrou afinação impecável, segurança e convicção, além de um gestual teatral, qualidades que o impuseram como um dos grandes violoncelistas da atualidade.

A sonata de Benjamin Britten, primeira obra dedicada ao seu amigo russo Mstislav Rostropovich em 1961, tem cinco curtos movimentos e escrita concisa e ao mesmo tempo muito criativa. No scherzo, por exemplo, Isserlis abandonou o arco e tocou com os dedos (pizzicato), recurso que Britten adotou também num dos movimentos de sua célebre Sinfonia Simples para cordas. E se na Elegia o violoncelo canta apaixonado, uma marcha irônica introduz o moto perpetuo final.

Crítica: João Marcos Coelho

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