'Beethoven é como um trovão'

'Beethoven é como um trovão'

Myung-Whun Chung fala sobre os concertos na Sala São Paulo

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2010 | 00h00

Um coreano, tocando Beethoven à frente de uma orquestra francesa, para uma plateia brasileira. "Não se consegue multiculturalismo maior do que esse", diverte-se o maestro Myung-Whun Chung, que hoje e amanhã comanda a Filarmônica da Radio France na Sala São Paulo. "Brincadeiras à parte, por mais que se fale da música clássica fora do grande debate cultural, situações como essa têm algo a ensinar sobre a importância desse repertório."

O programa dos dois concertos de Chung em São Paulo, pela Sociedade de Cultura Artística, é o mesmo. Começa com a abertura da ópera O Franco Atirador, de Weber; em seguida, o Concerto nº 1, de Chopin, com solos do pianista Sergio Tiempo, um dos protegidos da argentina Martha Argerich; na segunda parte, a Quinta Sinfonia de Beethoven. É um programa bastante tradicional, peças célebres, favoritas do público, certo? Chung não concorda totalmente. "Uma sinfonia como a Quinta está voltando de uma nova maneira ao repertório de qualquer grande orquestra", diz ele.

Chung se refere ao movimento de música historicamente informada, segundo o qual obras devem ser interpretadas de acordo com a maneira como deve ter soado na época de sua estreia. A tendência levou à criação de grupos especializados, o que, se não roubou peças como as sinfonias de Beethoven das orquestras tradicionais, as forçou a buscar uma interpretação mais atenta às pesquisas históricas. "A questão hoje é tocar esta sinfonia de maneira convincente e mostrar-se à vontade perante todo o repertório. A peça de Weber é o fundamento da ópera alemã e isso dá a ela uma importância gigantesca. É uma abertura especial, em que 80% daquilo que vamos ouvir na ópera já está presente, exigindo bastante dos músicos."

E Beethoven? "É uma sinfonia que conquistou a humanidade. Seu poder é impossível de descrever, mas o impacto é profundo, sentido por qualquer pessoa que a ouça. Veja, conheci a peça durante minha infância em Seul. Aos 9 anos, ouvi uma gravação e, pronto, disse a meus pais que queria ser maestro. Com os meus filhos, foi parecido. Meu terceiro sempre esteve envolvido com música, mas foi com Beethoven que resolveu que não conseguiria ficar longe da música. Foi como um trovão irrompendo na sala de casa e revelando algo sério e profundo."

Chung começou a carreira, em Seul, como pianista. Nos anos 70, após vencer concursos importantes, mudou-se para os Estados Unidos, onde começou a se dedicar também à regência. Em 1979, tornou-se assistente do maestro italiano Carlo Maria Giulini na Filarmônica de Los Angeles. Nos anos seguintes, desenvolveria um repertório amplo, com gravações preciosas de música do século 20, de autores como Messiaen, Shostakovich e Duttileux.

Sua trajetória está bastante ligada à ópera. Ele foi diretor da Ópera Bastilha, em Paris, nos anos 90; desde o ano passado, colabora estreitamente em Veneza com o Teatro La Fenice, mítico palco da ópera italiana. Influência de Giulini, um dos grandes intérpretes do gênero? "Não necessariamente", diz ele. "Minha relação com a ópera não é parecida com a da velha escola de maestros que começavam como pianistas acompanhando cantores e iam aprendendo tudo sobre o gênero no dia a dia de um teatro. Na verdade, foi algo que aconteceu quando cheguei a Nova York. Ali, me senti atraído imediatamente pelas óperas."

Verdiano. Chung gravou uma série de ópera francesa para selos como EMI Classics e Deutsche Grammophon. Mas diz ter maior identificação com as obras de Mozart e Verdi, que têm "um lugar especial em meu coração". "É difícil ser mais direto e nobre que Verdi na maneira de articular todas as emoções humanas no espaço curto de duas, três horas." No ano passado, ele regeu La Traviata no La Fenice; há cerca de um mês, foi a vez de Rigoletto. "Veja este caso. Rigoletto começa com uma maldição e termina com uma morte sobre o palco, fruto de um desejo frustrado de vingança. Há uma crueza, e também certa nobreza, na maneira como Verdi trata do tema. A ópera é um mundo à parte. Não podemos esquecer que ela nos propõe basicamente investigar as mais profundas emoções humanas, de maneira intensa, em um período curto, concentrado. Não é fácil, mas Verdi conseguiu. E trabalhar com uma orquestra como a do La Fenice, onde muitas dessas óperas estrearam, é especial pois esse idioma específico faz parte do que esses músicos são, está totalmente dentro deles. O nível de compreensão que eles têm dessas partituras é difícil de imitar."

De volta a Beethoven. Chung já foi embaixador das Nações Unidas para o programa de controle de drogas da entidade; atualmente, é, em conjunto com os músicos da Filarmônica da Radio France, embaixador da Unicef. Em que medida a música é um instrumento político - ou de transformação? "É uma questão delicada, em especial se queremos fugir do óbvio. A música não ajuda ninguém, mas pode contribuir na vida de qualquer pessoa, acho essa a diferença fundamental. E, com a música clássica, o trabalho não é tão fácil quanto seria em outros contextos. Quando se é uma estrela pop, por exemplo, com fama que corre o mundo, sua presença, sua popularidade já pode ser suficiente. Com os artistas clássicos, a situação é diferente. O que exatamente temos a oferecer ao mundo? A paisagem da música que fazemos, uma paisagem que atravessa o tempo. Que outra música vem se desenvolvendo nos últimos 500 anos, com autores que ainda hoje nos dizem algo de tão importante? O que essa permanência e essa transformação constante pode ensinar? A música clássica pode levar a uma compreensão do que é humano, suas qualidades básicas, vitais, e da maneira como essa humanidade se expressa. Para isso, ela ensina, antes de mais nada, a ouvir. E pode mexer com qualquer pessoa, em qualquer lugar."

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