Beethoven e a liberdade em Fidelio

Obra do compositor ganha leitura contundente do maestro Abbado

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h08

"Não se trata de uma ópera no sentido a que estamos acostumados, nem Beethoven parece ser um músico feito para o teatro, um dramaturgo. Ele é bem mais: um músico completo e, além disso, um santo e visionário." As palavras do maestro alemão Wilhelm Furtwängler, proferidas no final dos anos 40, resumem bem a dicotomia que se instaurou na apreciação de Fidelio, única ópera de Beethoven, que acaba de ganhar nova gravação comandada pelo maestro Claudio Abbado.

A obra, estreada em 1805, narra a história da jovem Leonora que, na tentativa de salvar Florestan, aprisionado por suas posições políticas, se traveste e consegue trabalho na prisão onde o amado é mantido. O libreto fala de igualdade, liberdade, justiça - e ganha em significado quando lembramos que o interesse do compositor pelo tema se dá no momento em que as tropas de Napoleão, que acabara de se autoproclamar imperador, controlam Viena, gesto que Beethoven, em um primeiro momento admirador das ideias da Revolução Francesa, considera enorme traição.

Da mesma forma, ao evocar seus ideais de amor e liberdade, Furtwängler ainda ouvia os ecos do fim da Segunda Guerra Mundial. Ou seja, desde sua estreia - e provavelmente até quando a guerra e a injustiça forem realidades com as quais a humanidade terá que lidar -, a "mensagem" de Fidelio é pelo menos tão importante quanto a música que a descreve.

Mistura de números cantados e falados, a ópera é de fato problemática no que diz respeito ao seu aspecto formal e o libreto está repleto de cenas pouco verossímeis. O teatro, no fim das contas, vem da música e seu escopo sinfônico, em especial sob as mãos de um maestro como Abbado. No todo, ela continua mal ajambrada, mas poucas vezes seus detalhes soaram tão contundentes e bem interpretados por um elenco de exceção, liderado pelo Florestan de Jonas Kauffman, o Rocco de Christoff Fischesser, o Fernando de Peter Mattei e a Leonora de Nina Stemme - nessa ordem.

A gravação foi feita ao vivo em 2010, durante récita no Festival de Lucerna dirigida por Tatjana Gürbaca, que criou diálogos adicionais para a obra. Não se trata de atualizações da história, apenas um reforço de suas intenções. Nesse sentido, soam desnecessários - mas não atrapalham.

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